Stranger Things: Série expressou seu desespero no final – 01/01/2026 – Ilustrada
Nunca antes na TV americana houve uma série que expressasse tão bem o desespero com seu próprio final como “Stranger Things”. Com a imagem de um planeta que despenca dos céus em direção à cidade de Hawkins, o derradeiro capítulo levou ao pé da letra a sensação de agonia eterna do público, que viu o programa ser soterrado pelo peso das altas expectativas.
Foi uma temporada difícil. Encerrado na virada do ano, o seriado criado pelos irmãos Duffer sofreu com um destempero de ambição no quinto e último ano. A trama apanhou com episódios ao mesmo tempo corridos e arrastados, além de um desfecho de duas horas que descambou de vez para o constrangimento —de resoluções, pieguice ou explicações.
Cuidado com os spoilers a partir daqui.
O desmoronamento tem a ver com a própria evolução da série durante a década em que esteve no ar. Além de carro-chefe da Netflix, “Stranger Things” foi um dos programas que consolidou o novo modelo de grandes produções televisivas inventado por “Game of Thrones”. O seriado cresceu em estrutura e escopo, trocando a intimidade do horror pelo épico recheado de eventos midiáticos.
A fórmula fez bem à produção na terceira e na quarta temporadas, que ganharam em novidade e invenção; na quinta, porém, virou dor de cabeça. Acuados na missão de achar um fim para a história, os Duffer quiseram amarrar todas as pontas no último ano, completando ciclos que provavam um suposto planejamento maior da série.
O plano deu errado e mais puniu do que serviu a leva final de episódios, marcados por uma sensação geral de improviso. O resgate de situações como a morte da filha do xerife Hopper e o retorno de personagens como Kali, a irmã de Eleven, forçaram a barra, e o programa passou a andar no ritmo apressado das explicações dadas aos quatro ventos.
O didatismo sempre foi uma ferramenta da série, justiça seja feita, e desde o primeiro ano Hawkins funcionou em cima de teses e revelações. Mas o recurso se tornou regra na reta final, ainda mais diante de tanta volta ao passado e de uma necessidade urgente por um clímax imenso. Nada justifica o penúltimo episódio, por exemplo, que usa mais de dois terços dos seus 90 minutos para introduzir e justificar a lógica do finale.
O mais engraçado é que as explicações do seriado se atropelaram em si mesmas, mirando a totalidade de todos os assuntos para acabar encolhendo a trama ao tamanho de um pote de azeitona. Para piorar, os conceitos mal conversam entre si para além do momento. Enquanto o mundo invertido no fim virou um buraco de minhoca, o vilão Vecna se mostrou uma criança amaldiçoada por uma pedra extradimensional. Esses choques entre ciência e acaso místico desgastaram a história.
Em ambos os casos, valia mesmo para a produção a revelação do fato; seus pormenores e seu sentido são deixados de lado. A ruína do seriado veio justamente desta narrativa de impacto. Perdidos em justificativas, os Duffer se agarraram aos grandes momentos como boia de salvação, sempre que possível atirando para cima o roteiro da quinta temporada.
Isso ajudou os últimos episódios a se perderem em situações incoerentes, cercadas pelo clima de mistério que escondia o jogo da história. Assim, fica fácil para a mãe de Mike e Nancy sobreviver a um rasgo na garganta, depois de brigar com um Demogorgon, ou de Jonathan e a própria Nancy saírem incólumes de uma explosão de mumbo jumbo físico, que quase explode o mundo invertido.
Tudo vai tão mal que, no desfecho, a série se entrega de corpo e alma a momentos grandiosos sem pensar nos detalhes. Quando Vecna é derrotado, por exemplo, o programa traz à tona uma sequência de flashbacks que lembram os traumas causados pelo vilão. A cena forte serve de descarrego ao público, que assiste a Joyce decapitar o inimigo, mas esquece que nem todo mundo do elenco está ali —coitada de Max, aliás, que foi esquecida com uma enfermeira durante o clímax da trama.
A quinta temporada consegue esquecer até mesmo dos próprios eventos na aterrissagem. Assunto principal dos oito episódios, a fuga das crianças da mente de Vecna passa batida depois da queda do vilão; logo depois, Dustin é aplaudido de pé por toda Hawkins ao mostrar a camiseta do clube Hellfire na formatura, apesar dele começar o ano espancado por trajar o figurino na escola.
Matar personagem é o de menos numa hora dessas, e convenhamos que apelar a esta tática seria contraprodutivo à natureza do programa. O erro crasso dos últimos episódios foi do nível de contação de histórias, dedicando tempo a dezenas de detalhes ao invés de dar espaço às dúzias de figuras carismáticas que fizeram a reputação de “Stranger Things”.
Nisso, o grande crime dos Duffer foi o de arremessar pela janela qualquer noção de desenvolvimento dos personagens. Hopper de repente carrega a mesma síndrome de messias de antes, e Steve e Jonathan brigam pela garota como dois colegiais. Depois de dez anos —quatro no andamento da história—, assusta ver o seriado apelando a cenas que poderiam muito bem estar nos primeiros episódios.
Aí se entende como os anos 1980 são a verdadeira dimensão imaterial de “Stranger Things”, um programa no qual o tempo se recusa a passar. Quando a trama avança alguns meses e mostra todo mundo envelhecido por uma maquiagem pior que a do epílogo do último “Harry Potter”, o que já é mambembe vai ao chão de vez. A série pula da infância à terceira idade e jura de pé junto que atingiu a maturidade —uma ideia infantil, digna de um grupo de crianças.



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