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Ao menos oito suspeitos em 10 feminicídios em janeiro no RS já tinham antecedentes criminais

Ao menos oito suspeitos em 10 feminicídios em janeiro no RS já tinham antecedentes criminais

Manifestação em Canguçu contra a morte de Letícia Foster Rodrigues. Suspeito tinha diversos antecedentes.

A maior parte dos investigados como autores em 10 casos de feminicídio registrados em janeiro no Rio Grande do Sul já tinha algum tipo de antecedente criminal. Ao menos oito deles acumulam passagens pela polícia, por crimes como ameaça, lesão corporal e tráfico de drogas, entre outros. 

Um deles é Jucemar Padilha, 31 anos, preso em flagrante na noite de segunda-feira (26) em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, pelo 10º caso de feminicídio deste ano no Estado. A vítima, Paula Gomes Gonhi, 44, que era companheira dele, foi ferida a golpes de faca e morreu na casa onde os dois moravam, no bairro Renascença.

Segundo o delegado Alessander Zucuni, o casal vivia junto havia dois anos e tinha um histórico de brigas, mas não foram feitos registros de violência doméstica. O suspeito tem antecedentes por dano, ameaça, tráfico de drogas, desacato e lesão corporal.

Zero Hora realizou o mapeamento com base nos registros policiais e nas investigações dos casos. Seis dos supeitos mantinham relacionamento com a vítima quando o crime aconteceu, seja como namorado ou marido, e quatro deles eram ex-companheiros. 

Desses homens, nove estão presos e um ainda permanece foragido, em Muitos Capões, na Serra. Lazaro Tschoepke Pinto é apontado como autor da morte de Uliana Teresinha Fagundes, 59 anos. O crime aconteceu na casa em que eles moravam antes da separação. A vítima foi morta a tiros no mesmo dia em que havia assinado o divórcio, na semana passada. 

A vítima havia deixado a residência em que acabaria sendo morta quatro dias antes do crime. Na manhã de 20 de janeiro, ela e o ex-marido assinaram o divórcio em Vacaria e retornaram juntos à cidade. Ao chegar ao endereço, ela teria entrado no local, enquanto o homem aguardava do lado de fora. Minutos depois, Uliana foi atingida pelos disparos.  Desde então, o suspeito segue foragido. 

Oito vítimas eram mães

Reprodução / Arquivo pessoal
Karizele era mãe de duas meninas.

Karizele Oliveira Senna, 30 anos, era mãe de uma bebê de apenas oito meses e de uma adolescente. Na madrugada do último sábado (24), ela foi morta a facadas dentro de casa, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. O companheiro dela Kelvyn Luan Tavares Nunes, 31 anos, está preso de forma preventiva pelo crime

Na madrugada do crime, as filhas de Karizele estavam em casa, quando a mãe foi atacada com uma faca de cozinha. A perícia apontou ela foi atingida por oito golpes.

Das 10 vítimas, ao menos oito eram mães, e deixam, portanto, órfãos. Assim como Karizele, oito foram assassinadas dentro das próprias casas ou da casa do autor do crime. 

Os outros crimes aconteceram em uma parada de ônibus, na zona sul de Porto Alegre, onde Paula Gabriela Torres Pereira, 39 anos, foi morta  a facadas, e em área de mata, em Canguçu, onde foi achado o corpo de Letícia Foster Rodrigues, 37

Neste último caso, William Bizarro Porto, que mantinha relacionamento com a vítima, foi preso pelo feminicídio. Segundo a polícia, o homem possui antecedentes por porte ilegal de arma de fogo, ameaça, tráfico e descumprimento de medida protetiva. Familiares e testemunhas relatam que ele já mantinha um comportamento agressivo e possessivo com a vítima.

Sem conseguir pedir ajuda

A maior parte das vítimas não tinha medida protetiva de urgência. Em um dos casos, no entanto, Marinês Teresinha Schneider, 54 anos, foi morta em Santa Rosa, no noroeste do Estado, mesmo com a decisão judicial. Havia determinação para que o ex mantivesse distância mínima de 100 metros e não realizasse qualquer contato por meios virtuais. 

O crime aconteceu em 18 de janeiro. João Luís Pinto Quintana, 57 anos, é apontado pela Polícia Civil como suspeito de ser autor do feminicídio. Não havia pedido por parte da polícia para que ele fosse monitorado com uso de tornozeleira eletrônica. 

Na data do crime, Quintana teria invadido a residência de Marinês e disparado várias vezes contra ela, que morreu na hora. O homem fugiu do local e se apresentou na Delegacia da Mulher de Santa Rosa somente na tarde de segunda-feira (19), quando seu mandado de prisão foi cumprido.

Ao menos duas mulheres já tinham solicitado medida anteriormente. Uma delas, a mais jovem entre as vítimas, Mirella dos Santos da Silva, 15 anos, foi morta em Sapucaia do Sul. Em dezembro, a vítima solicitou medida protetiva contra o namorado dela, Eduardo Albernaz da Silva, 25 anos,

Conforme a comandante do 33º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Noélia Raggio, a adolescente vinha sendo acompanhada pela Patrulha Maria da Penha, da Brigada Militar, mas, no dia 6 de janeiro, teria manifestado interesse em não prosseguir mais com o acompanhamento

Segundo a polícia, Silva teria enviado uma mensagem à irmã informando que havia agredido a vítima após uma discussão. A irmã se dirigiu até a casa dele, no Beco José Joaquim, no bairro Cohab, onde encontrou o corpo da adolescente e avisou a polícia. O casal mantinha um relacionamento havia cerca de oito meses. O suspeito foi preso em flagrante pelo feminicídio.

Maior parte foi morta a facadas

Em relação à dinâmica dos crimes, em oito casos as vítimas foram mortas a facadas. Entre elas, a bombeira civil Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, 31 anos, assassinada em Guaíba, na Região Metropolitana. O caso foi o primeiro registrado neste ano. O namorado dela, Alex Sousa de Queiroz, 44 anos, foi preso em flagrante. A bombeira deixou um filho de 10 anos.

Outras duas mulheres foram baleadas: Uliana, morta em Muitos Capões, e Marinês, vítima em Santa Rosa. Ainda sobre os casos, quatro deles aconteceram na Grande Porto Alegre, sendo dois na Capital. Os demais foram no Vale do Sinos, no Litoral Norte, no Sul, no Noroeste, na Serra e o mais recente no Vale do Rio Pardo.

Comportamentos de alerta

Alguns comportamentos de alerta podem ser percebidos em um relacionamento abusivo, mas muitas vezes são confundidos com proteção e afeto.

É importante que não apenas a mulher que está em um relacionamento, mas toda a sua rede de apoio consigam identificar atitudes violentas independentemente do grau de intensidade, para então pedir ajuda, para si ou para alguém que esteja passando por isso.

Confira alguns sinais:

  • Dar provas exageradas de amor no início da relação, o chamado love bombing. Quando o homem faz promessas de amor e ocupa todos os espaços de vida da mulher.
  • Isolar a mulher dos amigos e familiares (sua rede de apoio)
  • Convencer ou exigir que a mulher deixe de estudar e trabalhar, o que também é uma forma de isolamento
  • Regular a roupa que a mulher usa
  • Monitorar os locais onde a mulher vai
  • Conferir o telefone da mulher, para saber com quem e sobre o que ela conversa
  • Perseguir a vítima, esperando na saída do trabalho, enviando reiteradas mensagens e se alterando caso ela não atenda ou retorne
  • Desqualificar a mulher, como forma de reduzir sua autoestima

Como pedir ajuda

  • Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.
  • Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
  • Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
  • As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.
  • É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.

Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180

  • Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.

Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556

  • Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).

Centros de Referência de Atendimento à Mulher

  • Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.

Ministério Público do Rio Grande do Sul

  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
  • Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

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