Dez feminicídios marcam o primeiro mês de 2026 no Rio Grande do Sul
Karizele de Oliveira Sena, 30 anos, em Novo Hamburgo, e Leila Raquel Camargo Feltrin, 24 anos, em Tramandaí, foram mortas a facadas no último final de semana pelos respectivos companheiros, em frente aos seus filhos. Nesta segunda-feira (26), outra mulher, de 44 anos, foi assassinada em Santa Cruz pelo parceiro. Na última terça-feira (20), Mirella Santos da Silva, de 15 anos, foi morta a facadas na casa do namorado. Ela foi encontrada amarrada e tinha medida protetiva havia cerca de um mês. Eduardo Albernaz da Silva, 25 anos, confessou o crime e foi preso em flagrante.
De acordo com a Polícia Civil, Sena havia registrado três ocorrências contra Kelvyn Luan Tavares Nunes, 31 anos, que está preso preventivamente. A vítima era mãe de uma menina de 13 anos e de uma bebê de nove meses. Segundo familiares, a filha mais velha teria pego a irmã e saído pela rua para pedir ajuda a uma vizinha. O crime ocorreu na madrugada de sábado (24).
Já Feltrin foi morta por Wesley Samuel Schiling, 25 anos, após o casal retornar de um evento religioso no domingo (25). Ela era mãe de duas filhas, de dois e cinco anos. Conforme divulgado pela imprensa, vizinhos relataram que havia brigas constantes. A vítima teria acionado a Brigada Militar em outra ocasião, mas desistido de registrar ocorrência.
Os quatro crimes se inserem em uma crescente onda de violência de gênero no Rio Grande do Sul. Somente nos primeiros 27 dias do ano, o estado registrou 10 feminicídios, o que equivale a quase três mortes de mulheres por semana. O pico ocorre sobre uma base já elevada de agressões: dados de 2025 indicam que, das mais de 52 mil ocorrências de violência contra a mulher, 80 resultaram em feminicídio e 264 foram tentativas. Em 2024, foram 73 feminicídios consumados e 236 tentativas, segundo o Observatório Estadual da Segurança Pública. Em janeiro de 2025 foram registrados nove feminicídios; em 2024, 12.
Esta é a primeira reportagem de uma série especial sobre o tema.
“O feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo que não foi interrompido”
Em entrevista ao Brasil de Fato RS, a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher do Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (Dipam/DPGV), afirmou que “os dados mostram que a violência de gênero no Rio Grande do Sul segue sendo um problema estrutural e persistente”.
Segundo ela, em 2026, até o momento, os números de feminicídio se mantêm no mesmo patamar do ano passado. “Isso não nos permite qualquer acomodação. Não houve crescimento, mas o patamar segue alto, o que exige atuação permanente. O que os dados revelam é uma dinâmica de violência que, em grande parte dos casos, se desenvolve ao longo do tempo, dentro de relações marcadas por controle, ameaças e agressões anteriores. O feminicídio costuma ser o desfecho de um ciclo que não foi interrompido a tempo”, declarou. As respostas foram enviadas nesta segunda-feira (26).
Crianças órfãs, impactos duradouros e subnotificação
A delegada também destacou os efeitos sobre crianças e adolescentes. Em 2025, os feminicídios no Rio Grande do Sul deixaram 116 órfãos, o que evidencia que a violência letal contra mulheres gera impactos profundos e duradouros, atingindo diretamente também a infância e impondo demandas estruturais à rede de proteção social.
Outro ponto abordado foi a subnotificação. De acordo com ela, esse segue sendo um desafio central. “Os dados mostram que 74,7% das vítimas de feminicídio não possuíam ocorrência policial prévia e 94,9% não tinham medida protetiva vigente à época do crime. Isso indica que grande parte das situações de violência não chega ao conhecimento do sistema de proteção antes do desfecho letal”, afirmou.
Segundo a diretora, a Polícia Civil tem atuado para reduzir essas barreiras “por meio da qualificação do atendimento, fortalecimento das Delegacias Especializadas, integração com a rede e incentivo à denúncia como instrumento de proteção, não apenas de responsabilização”.

Perfil dos crimes e fatores de risco
Sobre o perfil dos casos, a delegada informou que “85% dos feminicídios ocorreram no contexto de relações íntimas, sendo o agressor, em sua maioria, companheiro ou ex-companheiro da vítima”.
A residência foi o local do crime em 77,2% dos casos, e os principais instrumentos utilizados foram arma branca (46,8%) e arma de fogo (27,8%). “Do total de vítimas, 75 não possuíam medida protetiva e 59 não tinham qualquer registro prévio de ocorrência, reforçando o impacto da subnotificação. Entre os fatores de risco mais recorrentes estão histórico de violência doméstica, antecedentes criminais do agressor, escalada recente do conflito e vínculos afetivos marcados por controle e dependência.”
Para a delegada, mudanças estruturais são urgentes. “É urgente fortalecer as políticas de prevenção baseadas em análise de risco, ampliar a estrutura do atendimento especializado, garantir maior efetividade das medidas protetivas e aprofundar a integração de dados entre os órgãos.”
“Também são essenciais políticas públicas que assegurem proteção, autonomia e acolhimento às mulheres, além da responsabilização célere do agressor. A redução dos índices passa pela interrupção precoce dos ciclos de violência”, completou.
“A violência contra a mulher não é um problema privado, mas uma grave violação de direitos humanos e um tema central na Segurança Pública. Denunciar é um ato de proteção”
Atuação da Dipam e integração institucional
A Polícia Civil prendeu 29 homens suspeitos de violência contra mulheres durante a Operação Ano-novo, Vida Nova, realizada ao longo de 24 horas, na terça-feira (20), em 53 municípios do Rio Grande do Sul. A ação também resultou na apreensão de quatro armas de fogo e munições, encontradas no cumprimento de mandados de busca e apreensão.
Coordenada pelo Departamento de Proteção a Grupos Vulneráveis (DPGV), a ofensiva mobilizou 363 agentes e teve prisões em 12 cidades. Porto Alegre concentrou 15 detenções, seguida por Capão da Canoa, com três, e Rosário do Sul, com duas. Também houve prisões em Canoas, Gravataí, Novo Hamburgo, Bom Jesus, Rio Grande, Erechim, Santa Rosa, Osório e Farroupilha, com um caso em cada município.
Segundo Alvarenga, a Dipam atua na coordenação das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher em todo o estado, na padronização de fluxos, na qualificação do atendimento e no fortalecimento das ações preventivas e repressivas.
“Esse trabalho é feito de forma integrada com o Judiciário, o Ministério Público, a Defensoria Pública, a saúde e a assistência social. Especialmente nos casos de maior risco, essa articulação é fundamental para garantir respostas rápidas, medidas protetivas eficazes e acompanhamento contínuo da vítima”, acrescentou.
Ao final, Alvarenga deixou uma mensagem direta: “A violência contra a mulher não é um problema privado, mas uma grave violação de direitos humanos e um tema central na Segurança Pública. Denunciar é um ato de proteção. O compromisso da Polícia Civil e da rede de proteção é atuar de forma integrada, qualificada e permanente para interromper ciclos de violência e preservar vidas.”
Caso de adolescente expõe falhas da rede
Para a jornalista e integrante do Levante Feminista contra o Feminicídio, Lesbocídio e Transfeminicídio Télia Negrão, o caso de Mirella Santos da Silva, de 15 anos, evidencia fragilidades na proteção institucional. Segundo ela, mesmo a adolescente estando sob tutela do Estado, conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), “decidiu que não queria monitoramento e ninguém a protegeu”, o que, avaliou, demonstra “a ruptura de todos os pressupostos sobre o papel das políticas públicas na proteção integral de mulheres, crianças e adolescentes”.
Na avaliação de Negrão, a resposta deveria ter sido articulada entre diferentes órgãos. “Deveria ter sido acionado o Conselho Tutelar, o Juizado da Infância e Juventude, a Delegacia da Criança e do Adolescente, e ter sido criado um cordão protetivo.”
A jornalista apontou falhas estruturais no funcionamento das instituições e afirmou que os órgãos de segurança e justiça deveriam atuar de forma integrada, sem transferir responsabilidades. “É uma falha da rede de atendimento e proteção às mulheres, pois não temos serviços suficientes no estado para acompanhar cada mulher sob medida ou vulnerabilidade.”
Em sua avaliação o que há é uma cortina de fumaça feita por afirmações inverídicas, de que o estado está cumprindo seu dever, de que há pontos de referência nos municípios, que qualquer serviço, sem servidores capacitados e sem estruturas adequadas, é capaz de proteger uma mulher. “Esta é uma postura omissa, irresponsiva, pois não há milagres para garantir a vida das vítimas: há trabalho sério, comprometido e qualificado.”

Ela também identificou dois cenários recorrentes de desproteção. “Temos pelo menos duas situações em que as vítimas não estão protegidas: a primeira, quando elas morrem sem nunca ter denunciado ou terem denunciado tanto que desistiram. A outra circunstância é quando a Medida Protetiva de Urgência (MPU) se vira contra as mulheres, cerceando sua liberdade sem nenhuma mostra de que funciona.”
Segundo Negrão, isso revela a necessidade de políticas articuladas. “Uma política pública sozinha não vale muita coisa, ela tem que estar integrada a outras, dando à mulher a certeza de que está no caminho certo.”
A jornalista ressaltou que a MPU é fundamental, mas alertou para falhas graves em sua aplicação. “A existência de uma Medida Protetiva de Urgência pode salvar vidas, mas quando as vítimas se sentem mais ameaçadas e mais amordaçadas e reféns por uma medida, algo está errado.”
De acordo com Negrão, os dados do Rio Grande do Sul revelam contradições preocupantes. “No Rio Grande do Sul, a absoluta maioria das vítimas não tinha medida protetiva no ano passado quando ocorreram assassinatos em série, e em 2024 o estado foi o campeão nacional de feminicídios de mulheres que dispunham de MPU.”
Desde abril de 2025, a Delegacia da Mulher conta com uma plataforma digital para registro de ocorrências de violência, nela é possível protocolar pedidos de Medida Protetiva de Urgência online. A medida pode determinar o afastamento do agressor do lar, impedir que ele frequente determinados locais ou se aproxime da vítima e de familiares, e restringir ou suspender visitas a crianças e adolescentes
Cultura machista e violência
A jornalista relacionou os índices elevados a fatores culturais do estado. “No RS temos vários elementos que podem explicar por que tantas mulheres são assassinadas. A construção cultural dos homens gaúchos baseada na virilidade e na força, num mito ancorado na vida no campo, sobre um cavalo, em que demonstrar masculinidade é submeter o animal, é não levar desaforos para casa.”
Segundo Negrão, esse imaginário encobre fragilidades emocionais. “Isso esconde uma baixa autoestima e baixa capacidade de superar frustrações. Por isso partem para a raiva, praticando o ódio e a violência fatal na expectativa de que a sociedade vai compreender seus motivos e legitimá-los.” Além disso, prossegue, faltam políticas para proteger as mulheres que estão tentando sair de situações de risco.
Para ela, esse processo passa pelo reconhecimento do perigo real e pela ruptura com idealizações afetivas. “É uma verdadeira guerra interna que as mulheres vivem, pois nossa sociedade construiu modelos de felicidade vinculados a relações afetivas, ao casamento e a uma ideia equivocada e conservadora de família. Não conseguir construir uma é um desconforto às mulheres, achando que elas falharam.”
Educação e prevenção desde a infância
Negrão defendeu políticas permanentes de formação social. “Precisamos de políticas públicas de prevenção primária e secundária que estimulem o debate na escola e na sociedade e se possa aprender, coletivamente, desde a infância, o valor da vida das mulheres, o direito de cada pessoa de tomar suas decisões.”
Ela citou ainda a necessidade de políticas integradas em rede que deem suporte às mulheres diante da menor situação de violência, seja uma ameaça que pode se concretizar, humilhações ou pequenas violências físicas, que acabam criando um ambiente social desfavorável às mulheres e às meninas.
Violência persistente e estrutural
A advogada Rafaela Caporal, coordenadora da área de enfrentamento às violências da Themis, afirmou que os números revelam a profundidade do problema no estado. Segundo ela, os números revelam sobre a dinâmica da violência de gênero no Estado e demonstram que ela é “persistente” e “grave.”
“Em um mês a gente ter aí uma violência letal contra as mulheres, que já vai chegar a 10 feminicídios e que isso continua acontecendo de forma frequente, demonstra que esse não é um problema pontual, não é um problema esporádico”, disse Caporal.
Para a advogada, isso aponta para uma violência “enraizada em desigualdades estruturais e nas relações de poder baseadas no gênero”.
Caporal lembrou que a maioria dos casos ocorre no contexto doméstico, o que representa o resultado extremo de ciclos da violência que já existem. A persistência desse tipo de crime, prossegue a advogada, mostra que precisamos fortalecer as medidas de proteção e também as medidas de monitoramento dessa medida protetiva e de acompanhamento dessa mulher depois que ela faz a denúncia.
Para a advogada, há uma insuficiência e falha na implementação das políticas de prevenção. “A gente não fala sobre igualdade de gênero, não fortalece as redes de acolhimento e de proteção às mulheres e não tem um atendimento integrado entre o sistema de justiça, segurança, assistência social e saúde. Será que a gente tem como fazer um enfrentamento à violência de gênero e aos feminicídios sem a política pública? Não me parece que é uma realidade”, questionou.
“A violência às vezes acaba desdobrando nos contextos de família, no contexto dos filhos, da pensão alimentícia, da convivência, da guarda.”
Implementação da Lei Maria da Penha e política de Estado
Caporal defendeu mais diálogo com a sociedade civil e articulação estatal. “Quando é que vamos ouvir realmente, articular e chamar uma reunião com as organizações da sociedade civil que estão pensando isso? Que a Rede Lilás possa ser mais ativa.”
Ela afirmou ainda que a Lei Maria da Penha segue sendo aplicada de forma insuficiente. “A gente precisa implementar a Lei Maria da Penha com mais rigor. Sem realmente uma prioridade política e orçamento, isso vira um discurso vazio.”
Segundo a advogada, a aplicação da legislação precisa considerar outros impactos da violência. “A violência às vezes acaba desdobrando nos contextos de família, no contexto dos filhos, da pensão alimentícia, da convivência, da guarda.”
Para Caporal, são necessárias mudanças estruturais. “A gente precisa apostar numa construção de respostas a longo prazo. Não tem uma fórmula mágica.”
Ela citou medidas concretas como programas de educação em igualdade de gênero, reinserção do ofensor em programas que vão discutir a masculinidade tóxica, fortalecimento da rede de proteção, ampliação da Patrulha Maria da Penha, casas-abrigo, serviços de acolhimento, aposta em equipe multidisciplinar, atendimento capacitado, resposta rápida, acompanhamento das medidas protetivas e monitoramento do ofensor.
“A gente precisa tratar o feminicídio como uma política de Estado, ter uma meta clara de redução da violência de gênero, um orçamento específico e protegido para as políticas de enfrentamento. Implementar, de fato, a Lei Maria da Penha. Mudar a cultura, a naturalização da violência, a ideia de que esses conflitos são assuntos privados. Tratar os feminicídios como um crime que pode ser evitável.”
Cansada da repetição de tragédias, finalizou: “A gente está cansada de perder tantas mulheres. Eu particularmente estou cansada de falar sobre isso. Os números revelam que a urgência não é pela mudança legislativa, mas sim política e estrutural. Está muito evidente que as coisas não estão funcionando. Quando é que a gente vai de fato olhar para isso?”
O movimento feminista gaúcho está convocando uma vigília para essa quarta-feira (28), a partir das 18h, em frente ao Palácio Piratini.
*Com informações do ABC Mais



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