O look faz parte do show: como a moda evoluiu ao longo dos 30 anos do Planeta Atlântida
A edição de 30 anos do Planeta Atlântida está chegando: nesta sexta e no sábado, dias 30 e 31 de janeiro, a Saba, em Atlântida, volta a reunir milhares de pessoas para curtir shows de nomes como Anitta e Alok. Mas, antes mesmo da primeira música, o festival já acontece em outro palco: o da moda.
Ao longo de três décadas, o clássico short jeans e a regata nunca saíram de cena. A minissaia de cintura baixa, o top frente única — ou o biquíni por baixo —, os vestidinhos florais, que remetem ao clima praiano, e o tênis confortável seguiram firmes. O que mudou, na verdade, foi a intenção. Hoje, o look também faz parte do evento.
Nos primeiros anos do Planeta Atlântida, essa construção do visual passava muito mais pelos artistas no palco. Nos anos 1990, quando o festival nasceu, embalado pelo pop rock nacional, o público se vestia a partir de códigos mais definidos, inspirados diretamente nos artistas que se apresentavam, como analisa Joeline Lopes, professora do curso de Moda da Universidade Feevale:
— Naquele período, os festivais tinham um estilo muito mais preponderante. Quem gostava do pop rock se vestia de um jeito muito específico: camiseta, jeans, tênis, boné. Era uma forma de pertencer a um grupo. Além disso, artistas como Rita Lee, Fernanda Abreu e Paula Toller também se tornaram referências, não só de moda, mas de comportamento, especialmente para as mulheres, que passaram a se afirmar também pela forma de vestir.
Rodaika, comunicadora do Grupo RBS que trabalha na cobertura do Planeta Atlântida desde a primeira edição, viu a transformação de perto. Para ela, a mudança está relacionada à maneira com que público passou a se relacionar com o festival.
— O Planeta cresceu, evoluiu. O comportamento das pessoas também mudou. Hoje existe um envolvimento maior com o festival. A pessoa quer se sentir bem, quer estar bacana, se fotografar, publicar na rede social. Isso mudou completamente a relação com a roupa — afirma.
Esse movimento marca uma virada de chave no papel do público dentro dos festivais, como ressalta Joeline.
— O look é estratégico, extremamente planejado, não é feito do dia para a noite. Tem uma intenção por trás. Antes, o principal era a música. Hoje é mais do que isso. Tu não és mais espectador, mas faz parte do show — destaca a professora.
Com esse protagonismo e a conexão do público com as experiências dos festivais, também se observou um movimento maior das marcas trabalhando para oferecer opções de roupas e acessórios para esse tipo de evento. Rodaika, no entanto, destaca que, mesmo diante das transformações, o conforto ainda prevalece com um tom clássico e que, ao mesmo tempo, é autêntico.
— Não é conforto de roupa sem estilo. É conforto para aguentar horas de sol, chuva, mangueira, chão irregular. Hoje o protetor solar é um elemento de conforto. A pochete traz uma canga para sentar em determinado horário. Tem a jaqueta para caso esfrie. Ao mesmo tempo, se tu vais usar a clássica regatinha, ela pode ser de paetê, bordada, ter uma rendinha. O conforto também pode estar na maquiagem, no brilho no rosto, sabe? Ao fim de tudo, o look precisa sustentar a experiência — avalia.
Para Rodaika, o Planeta acaba sendo mais “permissivo” nesse sentido, mas foi se transformando com as novas gerações e o mundo hiperconectado.
— O gaúcho, no geral, é um pouco mais controlado com o que veste, não é mega adepto da moda, mas esse evento acaba se tornando uma festa, parece que tudo é mais permitido em relação ao vestir. Já vi gente fantasiada, personagens. As pessoas entregam. Existe um cuidado. E eu acho que isso está diretamente relacionado à evolução do evento e com as redes sociais — complementa.
Joeline concorda que essa entrega passa pela expansão das redes sociais que, hoje em dia, exige uma certa performance, principalmente pela ascensão do Instagram e do TikTok. Esse movimento se intensificou no contexto pós-pandemia, quando o acesso à informação ampliou a maneira como as pessoas constroem a sua imagem. Esse comportamento não surge do acaso, mas de um ambiente em que tudo repercute.
— Hoje vemos uma mudança bem significativa no comportamento do público. Tudo vira “instagramável”, performático. Tudo repercute nas redes sociais. Quando a gente passa a mostrar onde está, o que está fazendo, se torna um estilo de vida. Eu preciso estar no melhor lugar, com a melhor roupa. Existe uma forma de validação da própria identidade — analisa.
Tu não és mais espectador, mas faz parte do show.
JOELINE LOPES
Professora do curso de Moda da Universidade Feevale.
Está mais fácil pensar o look do Planeta?
Para a influenciadora Manu Canielas, 26 anos, que também já participou de algumas edições do festival, sim. Na avaliação dela, a pluralidade da moda e a proporção que o festival tomou facilitam na escolha. Sem contar que há também a possibilidade de se inspirar em outros eventos, como o Coachella, criando um fluxo de referências.
— Acredito que hoje em dia seja mais fácil. A gente tem muito mais acesso a essas coisas, tanto a conteúdo quanto a roupa em si, porque as marcas estão mais preparadas para esse momento. Antes rolava aquela busca de, “meu Deus, o que eu vou usar?”, mas acho que hoje as opções estão mais presentes e acessíveis —
Essa facilidade, no entanto, não significa ausência de códigos. Para Manu, o Planeta Atlântida sempre teve uma espécie de “uniforme”, especialmente entre os mais jovens, algo que atravessou gerações e ajudou a criar uma memória afetiva em torno do festival. No entanto, com o passar dos anos, a lógica foi se transformando e permitindo mais liberdade criativa.
— Quando a gente tem 14 ou 15 anos, é de praxe usar aquele clássico: shortinho jeans e regata. Mas, ao mesmo tempo, ir ao festival agora, estando mais velha, também é muito legal, porque eu posso usar mais o espaço para trazer produções diferentes, inovar mesmo. No Planeta do ano passado, por exemplo, usei uma calça jeans super casual, mas investi em uma maquiagem inteira com brilhos — lembra.

Mesmo que a estética ganhe cada vez mais espaço nesses locais, a influenciadora não enxerga o festival como um território exclusivamente performático. Para ela, o Planeta Atlântida também segue sendo um rito de passagem e um espaço legítimo para construção de identidade.
— Vejo o Planeta como um marco na vida dos adolescentes. É um bom momento para se questionar: “quem eu sou agora”? Não é necessariamente performático, mas algo natural mesmo. É um momento que temos que aproveitar para mostrar quem somos — acredita.
Na avaliação de Joeline, a ampliação das possibilidades estéticas e da diversidade de estilos que circulam pelo festival tornaram a moda do Planeta mais eclética.
— Existe muita diversidade, mas também existe uma intenção estética muito forte, ligada à performance. O look hoje é planejado porque vai comunicar um estilo de vida.
A preparação de quem vive o festival do começo ao fim
A preparação de quem vive o Planeta não apenas para curtir, mas também para trabalhar, exige um cuidado a mais. Rodaika apresenta o evento direto do estúdio da Atlântida, mas também circula pela Saba. Por isso, o planejamento do look também é importante para a cobertura — e começa bem antes de chegar ao festival.
— Com o passar dos anos, o evento foi evoluindo e eu senti que também precisava evoluir no sentido de entrega de visual. Passei a olhar como isso seria lido no vídeo e a cuidar mais. Para tu teres uma ideia, hoje eu produzo a minha própria roupa, com ajuda da designer Paloma Quadros. E é impressionante como as pessoas já esperam e me perguntam: “O que tu vais vestir esse ano?”. É um sinal de como a moda passou a ocupar um espaço relevante no Planeta.
Por fim, Rodaika aposta no que deve aparecer com mais força nesta edição:
— A renda está super em alta este ano. Tenho certeza que vai ter um monte de menina de calça balloon, saia de renda, ou com aquele toque de renda na blusinha. É legal ficar de olho no que está bombando e trazer o que é tendência para o festival. Mesmo estando dentro de um estúdio a maior parte do tempo, tento me conectar com o que está acontecendo.
A comunicadora ainda deixa uma dica para as planetárias:
— Esse é momento de propor combinações que a gente não usaria no dia a dia. Por isso, vale a pena investir no look e aproveitar o espaço para ousar, surfar nas tendências ou, quem sabe, até lançar algumas.



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