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Vinte euros, um sonho e um anjo chamado Jorginho: a improvável carreira de um brasileiro em Malta

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Vinte euros por semana. Esse era o salário que sustentava um sonho: atuar na base do Verona e se tornar jogador profissional na Itália. Aos poucos, porém, a fantasia se transformou em uma dura realidade, marcada por mentiras e dificuldades que iam muito além do campo.

Esse foi o momento mais difícil na improvável carreira de Emerson Marcelina. Foram muitos percalços superados ao longo do caminho e, com a ajuda fundamental de um velho amigo dos tempos de Verona, o catarinense de Imbituba virou jogador profissional e, há 12 anos, atua em Malta, onde se tornou ídolo.

A história italiana de Emerson começa como a de tantos jovens espalhados pelo Brasil, impulsionada pela promessa de um empresário.

Ele iniciou a trajetória em uma escolinha de sua cidade natal e, depois, seguiu para Araranguá, também em Santa Catarina, para um time que mantinha parceria com um agente italiano, porta de entrada para o futebol europeu.

Em seguida, fez testes no Brescia e no Verona, onde reencontrou um conterrâneo de Imbituba que se tornaria personagem central – e recorrente – de sua história: Jorginho.

O futuro jogador da seleção italiana, com passagens por Napoli, Chelsea e Arsenal, atualmente meio-campista do Flamengo, foi muito mais do que um colega de base.

Ao todo, foram quatro anos no Verona, em um contexto distante do glamour associado ao futebol europeu. No início, os dois brasileiros recebiam apenas 20 euros por semana. A dupla acreditava que tudo estava dentro do esperado, apesar das enormes dificuldades para se sustentar em um país estrangeiro. Até o dia em que descobriram que estavam sendo enganados.

“Esse foi o momento mais difícil, quando descobri que o clube repassava mais dinheiro. Quando entrou um CEO brasileiro, fomos conversar com ele e explicar que não dava para viver com 20 euros por semana. Foi quando ele nos contou que o clube pagava 1.200 euros por mês. O Jorginho aguentou a bronca, porque subiu meu sangue”, lembrou Emerson em entrevista ao podcast Futebol no Mundo, nesta semana.

O empresário que os levara para a Itália não repassava a quantia total e ficava com a enorme diferença.

Nesse período, outro brasileiro teve papel importante na sobrevivência da dupla. O goleiro Rafael, revelado pelo Santos e que atuou no Verona entre 2007 e 2016, ajudou bastante os dois jovens, principalmente do ponto de vista financeiro, em um momento em que a realidade ameaçava encerrar o sonho precocemente.

De qualquer modo, a desilusão foi tamanha que, mesmo após estrear profissionalmente pelo Verona em uma partida da terceira divisão, contra o Bassano, sob o comando de Giuseppe Giannini, Emerson decidiu abandonar o futebol. A negociação de renovação foi malconduzida pelo mesmo empresário e, no fim das contas, o brasileiro optou por voltar para casa aos 20 anos.

Chegou a fazer testes no Grêmio, mas foi o próprio Emerson quem pediu para sair. “Eu estava decepcionado com o futebol depois desses quatro anos no Verona”.

Com a ajuda de um conhecido de Imbituba, passou rapidamente pelo Jabaquara, então treinado por Paulinho Kobayashi, e depois atuou no próprio time de sua cidade. Sem receber salários, desistiu mais uma vez do futebol, agora com a sensação de que o esporte já havia lhe dado tudo – e tirado demais.

Foi nesse momento que surgiu, pela primeira vez, o seu “anjo”. Jorginho, já com carreira em crescimento, ao lado do empresário João Santos, falou sobre uma proposta na Romênia. A chegada ao Viitorul Constanța, clube recém-criado e liderado por um ícone do futebol europeu, foi marcada por um episódio curioso.

“Eu estava no hotel com o João Santos, na recepção, quando chegou uma pessoa e parou tudo. Parecia a chegada do Ronaldinho ou do Neymar. Perguntei quem era e o João me falou que era o presidente do time, Gheorghe Hagi“.

A partir daquele momento, Emerson entendeu exatamente onde estava e para quem jogaria. Outra experiência marcante foi a pré-temporada na Turquia, país onde Hagi se tornou ídolo vestindo a camisa do Galatasaray. “Quando chegamos na Turquia, fiquei apavorado. Os jornalistas pulavam uns sobre os outros para chegar no Hagi”.

Dentro de campo, porém, a realidade voltou a ser dura. A péssima temporada do Viitorul em sua estreia na primeira divisão romena resultou na saída dos estrangeiros do elenco. Hagi reuniu o grupo e explicou que seria necessário reduzir custos.

Mais uma decepção na carreira de Emerson, que retornou ao Brasil disposto, desta vez, a seguir um caminho distante do futebol. “Eu desabei, chorei muito”.

Mesmo assim, o futebol insistia em cruzar seu caminho. Graças à boa impressão deixada no Jabaquara, um empresário daquele período o levou para o Paraná Clube. Emerson se empolgou, fez as malas e seguiu para Curitiba, acreditando em mais uma oportunidade de recomeço.

Vai parecer roteiro de filme, mas as palavras do próprio jogador explicam melhor o que aconteceu no clube paranista.

“No primeiro dia de treino, o Lúcio Flávio chama todo mundo e pede para quem não fosse jogador sair do vestiário. Eu tinha acabado de assinar contrato. Aí alguém falou: ‘E aí, vamos treinar? Estamos há três meses sem receber’. Eu pensei: não é possível, onde eu estou? Tem alguma coisa errada”.

A situação tragicômica resultou em apenas um mês de Paraná Clube para Emerson Marcelina. Seis meses se passaram e o futebol profissional voltou a parecer algo distante de sua vida, quase como uma lembrança de outra existência.

Mais uma vez, Jorginho apareceu. “Ele me disse que ia arranjar um negócio”.

O negócio foi um acordo com o Floriana, de Malta. Em junho de 2015, Emerson fez novamente as malas, agora com a esposa, e partiu para o arquipélago no Mar Mediterrâneo. Doze anos depois, somando cinco clubes no país, tornou-se ídolo do futebol maltês e referência para todos os brasileiros que chegam em busca de espaço.

Nesse período, viveu histórias marcantes. Como a vitória por 1 a 0, em casa, contra o West Ham, pelas preliminares da Europa League de 2015, defendendo o Birkirkara, em partida decidida por gol do italiano Fabrizio Miccoli.

Na temporada atual, pela primeira vez um clube de Malta se classificou para a fase de liga ou de grupos de uma competição da UEFA. O Hamrun Spartans disputou a fase de liga da Conference League.

“Que experiência! Os resultados não ajudaram muito, mas foi muito importante para o futebol de Malta”. O Hamrun venceu o Lincoln Red Imps, de Gibraltar, e perdeu para Jagiellonia, da Polônia, Lausanne, da Suíça, Samsunspor, da Turquia, Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, e Shamrock Rovers, da Irlanda.

Passado tanto tempo, Emerson hoje olha para o passado e se diverte com as histórias e os perrengues, mas sem esquecer os momentos mais duros, que moldaram sua trajetória.

“Hoje em dia, aqui em Malta, vejo muitos empresários que trazem jogadores brasileiros e depois os abandonam. Pegam os 10% de comissão todo mês e não ajudam em nada, nem com a documentação da família”.

Aos 34 anos, Emerson pensa em jogar por mais dois ou três anos e depois voltar ao Brasil.

Quer seguir trabalhando com futebol. Na bagagem, levará uma carreira realizada e o sonho cumprido de se tornar jogador profissional – aquele mesmo sonho que, um dia, sobreviveu com apenas 20 euros por semana. Talvez com algo a mais também na mala.

“Há dois anos, o Jorginho esteve aqui com a seleção e eu levei minha filha para conhecê-lo. Ele brincou comigo que eu precisava fazer um ‘santinho’ dele”, se diverte. Entre anjos e demônios que rondam o futebol, Emerson Marcelina conheceu um pouco de todos ao longo de sua longa trajetória pelo mundo da bola.

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

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