Eleições em Portugal: socialista vence direita radical e é eleito presidente
Crédito, REUTERS/Rita Franca
Tempo de leitura: 4 min
Em uma campanha em que apelou ao voto moderado, o socialista António José Seguro foi eleito presidente de Portugal neste domingo (8/2), segundo a Comissão Nacional de Eleições.
Ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), de centro-esquerda, Seguro tinha 66,8% dos votos, com 99,20% das urnas apuras.
Ao falar com jornalistas antes de comemorar com seus apoiadores, Seguro declarou que “o povo português é o melhor povo do mundo”, com “responsabilidade cívica enorme”.
Depois, em discurso, Seguro afirmou que “os vencedores dessa noite são os portugueses e a democracia”.
Segundo o jornal Público, Seguro teve o maior número de votos absolutos da história em uma eleição presidencial em Portugal.
Também logo após o anúncio das projeções, Ventura reconheceu a derrota. “Ele venceu. Desejo-lhe um excelente mandato”, disse ao sair de uma missa.
O líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, também assumiu a vitória da esquerda, mas disse que seu partido é “o grande vencedor da direita”. “Provamos que vínhamos para ser diferentes” e contra o sistema “que se uniu contra nós”.
Seguro é visto como uma figura centrista e moderada e vai ter que atuar em momento polarizado na política portuguesa.
Portugal tem um regime semipresidencialista de matriz parlamentar. Isso quer dizer que, embora o presidente seja eleito por voto direto, o poder executivo é exercido pelo primeiro-ministro, indicado após eleições legislativas e que depende de apoio mínimo no Parlamento.
Desde 2024, o primeiro-ministro de Portugal é Luís Montenegro, da coligação de centro-direita liderada pelo Partido Social Democrata (PSD).
O papel do presidente, porém, está longe de ser protocolar, já que exerce um poder moderador crucial.
O presidente pode vetar leis, devolvendo-as ao Parlamento, e tem a prerrogativa de dar posse ao primeiro-ministro. Em casos extremos, também pode dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas — medida conhecida como “bomba atômica”.
Seguro, então, pode ser decisivo para garantir a estabilidade do governo minoritário de centro-direita liderado pelo PSD.
Crédito, REUTERS/Pedro Nunes
O novo presidente foi eleito com o apoio de várias figuras políticas portuguesas moderadas, entre eles Aníbal Cavaco Silva, presidente entre 2006 e 2016 e primeiro-ministro entre 1985 e 1995.
Também o apoiaram os prefeitos de Lisboa, Carlos Moedas, e do Porto, Pedro Duarte, ambos do PSD. Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD no primeiro turno, afirmou que votaria em Seguro por seu alinhamento com a “defesa da democracia” e a “moderação política”.
A votação deste domingo ocorreu com o país em estado de “calamidade pública”, em meio a uma onda de fortes tempestades. Ventura chegou a pedir o adiamento da eleição, mas autoridades eleitorais afastaram essa possibilidade, admitindo apenas adiamentos pontuais em alguns municípios.
Segundo os primeiros resultados, o comparecimento no segundo turno foi semelhante ao do primeiro turno.
O resultado para o Chega
Crédito, Anadolu via Getty Images
Mesmo muito atrás na contagem dos votos, a ida do Chega ao 2º turno em Portugal foi considerado como um “trunfo da direita radical”.
O fortalecimento da direita radical tem sido um dos fenômenos de maior impacto na política portuguesa nos últimos anos. O avanço do Chega no país foi surpreendentemente rápido, saltando de 1,3% dos votos em 2019 para 22,8% nas legislativas de 2025.
Essas eleições, portanto, registraram o melhor resultado do partido.
Entre analistas, se Ventura conquistasse entre 30% e 35% dos votos, isso mostraria que ele alcançou o eleitorado da direita e centro-direita.
Como ele conseguiu cerca de 33% dos votos, a agenda do Chega pode ganhar peso também entre as classes políticas, consolidando a ideia de que o partido é “um movimento em ascensão”.
“Ele terá base para afirmar que agora é a principal força da direita em Portugal”, disse, antes da eleição, António Costa Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa.
Em declaração à imprensa após os primeiros resultados anunciados neste domingo, Ventura lembrou que estas “são eleições presidenciais” (não as legislativas) e considerou que o país o escolheu para “disputar o espaço não socialista”.
Fundado em 2019 por Ventura, o Chega é hoje a segunda maior força no Parlamento português, com 60 cadeiras.
O partido cresceu com um discurso focado na rejeição à corrupção das “elites” políticas tradicionais, na defesa de políticas mais rígidas de segurança e no combate ao que classifica como imigração “descontrolada”, além de ataques a algumas minorias.



Publicar comentário