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Como Bad Bunny atesta crise no domínio dos EUA na música – 11/02/2026 – Ilustrada

Como Bad Bunny atesta crise no domínio dos EUA na música - 11/02/2026 - Ilustrada

Bad Bunny, com seu Grammy de melhor álbum do ano e o show do Super Bowl, se tornou símbolo máximo de um colapso que ameaça a hegemonia dos Estados Unidos na música.

Num palco profundamente americano, o porto-riquenho decidiu se apresentar cantando só em espanhol e lotou o espetáculo de signos compreendidos só por quem é latino. Foi uma afronta ao imperalismo e às políticas ultranacionalistas de Donald Trump.

Com os olhos do planeta voltados para ele, Bad Bunny desfilou entre vendinhas de água de coco, trombou com idosos jogando dominó e cutucou crianças adormecidas em cadeiras de plástico. Ao fim, homenageou Porto Rico, ilha que é parte do território americano, e reforçou que a América é um continente, formado em sua maioria por nações latinas.

Foi um protesto contra as políticas anti-imigração de Trump, que nas redes classificou o show de nojento, uma afronta, e disse que tudo o que Bad Bunny cantava era incompreensível. “Não representa os padrões de sucesso, criatividade e excelência da América. Ninguém entende uma palavra do que esse cara está dizendo.”

Muita gente entende, sim. Bad Bunny foi o artista mais ouvido no Spotify no ano passado, com o álbum “Debí Tirar Más Fotos”, cantado em espanhol e formado por sonoridades tradicionais da ilha caribenha —bateu nomes como Taylor Swift e Lady Gaga.

Gaga, aliás, se juntou ao porto-riquenho no Super Bowl para dançar salsa e cantar que continuaria sorrindo com ele mesmo neste fim de mundo, verso de “Die with a Smile”. A escolha da canção não parece aleatória diante dos protestos recentes da diva pop ao governo americano.

Embora questionada por parte do público, a presença de uma artista que é a cara dos Estados Unidos pode ser lida como um reforço da vontade de Bad Bunny de unir, não separar. É como se ele implodisse os muros de Trump e suas definições do que é mais ou menos americano, mais ou menos digno.

Antes disso, no Grammy, pela primeira vez na história um disco em espanhol saiu laureado na categoria de álbum do ano. No palco, Bad Bunny usou sua língua materna para discursar, e quando recorreu ao inglês, disse “fora, ICE”, em protesto à polícia de imigração dos Estados Unidos.

Bad Bunny, porém, surfa na crista de uma onda muito maior. Dona de um dos álbuns mais aclamados pela crítica no ano passado, a espanhola Rosalía canta em 13 línguas em “Lux”, obra que deve fazer a limpa na próxima edição do Grammy, apontam os especialistas, depois de a artista ser limitada às categorias de música latina na premiação de 2023.

Rosalía diz que canta em tantos idiomas porque o mundo é conectado e porque não quer pôr uma venda nos olhos ao ver outros territórios. Ao lançar “Lux”, a espanhola entrou para os mais vendidos nos Estados Unidos em seu lançamento, numa prova de que a língua também vem deixando de ser uma barreira para os americanos.

A mudança encontra amparo no crescimento da música pop sul-coreana, o k-pop. Embora a explosão do gênero tenha ocorrido na última década, no ano passado os Estados Unidos se tornaram um dos principais consumidores dele no mundo. Em dezembro, o grupo Stray Kids destronou Taylor Swift nas paradas musicais.

O ponto é que o k-pop nunca precisou dos americanos —encantou os fãs por lá depois de já estar consolidado no globo. E, ainda que alguns artistas da Ásia formem alianças com grandes nomes dos Estados Unidos para emplacar sucessos —caso de Rosé, do grupo Blackpink, que chamou Bruno Mars para o hit “Apt.”—, esses artistas vêm crescendo no país sem ter de fazer tantas concessões como o pop latino no passado.

A colombiana Shakira e o porto-riquenho Ricky Martin, por exemplo, tiveram de se aproximar da estética americana e cantar em inglês para serem totalmente aceitos. Coincidentemente, em meio a essa onda latina, ela foi a escolha para cantar no megashow “Todo Mundo no Rio”, na praia carioca de Copacabana, em maio, na esteira de Lady Gaga e Madonna.

Gêneros estrangeiros, especialmente os latinos, ainda são mais populares entre os imigrantes, mas os nascidos americanos estão cada vez mais abertos a eles, afirma Steven Loza, professor de etnomusicologia na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. “Eles ficam intrigados, gostam da batida, de dançar, especialmente os mais jovens. O reggaeton, por exemplo, ainda não se tornou exatamente mainstream, mas está chegando lá”, afirma o pesquisador.

Americanos estão mais atentos até à arte brasileira. O álbum “Rock Doido”, de Gaby Amarantos, foi eleito um dos melhores do ano passado por Anthony Fantano, crítico do canal The Needle Drop, que tem mais de 3 milhões de seguidores no YouTube. Isso vem na esteira dos esforços de Anitta, que nos últimos anos ficou fluente em inglês para fazer bons contatos e tentar emplacar o funk brasileiro por lá.

Bad Bunny, na contramão, desafia os americanos a buscarem sua música se quiserem apreciar suas letras. Além de mal cantar em inglês, o porto-riquenho tomou uma decisão antes impensável para um artista que desejasse uma carreira internacional —se recusou a levar sua turnê para a terra firme dos Estados Unidos. Disse que temia que seus fãs latinos fossem hostilizados pelo ICE.

Por isso, Bad Bunny fez 31 shows em Porto Rico, nove deles restritos à população local, o que gerou US$ 200 milhões, ou R$ 1 bilhão, à economia da ilha, historicamente menosprezada pelo governo americano. Agora viaja pelo mundo, com apresentações em São Paulo neste mês.

Faz parte da mensagem de Bad Bunny dizer que as fronteiras entre Porto Rico e os Estados Unidos continentais são, de certa forma, imaginárias, diz Steven Loza, o professor. “É tarde demais para limitar a imigração cultural. Já aconteceu. Os efeitos dela só vão aumentar.”

Isso reforça um senso de identidade plural na cultura que existe em fãs de artistas como o mexicano Peso Pluma, o primeiro a cantar “corrido tumbado”, tipo de música regional do seu país, no talk show The Tonight Show, de Jimmy Fallon, um dos maiores da TV americana. “Ele foi convidado porque há um grande público interessado. Um público bilíngue, bicultural, que ouve hip-hop em inglês, depois reggaeton em espanhol, e ‘corrido tumbado’”, afirma Loza.

Essa é a tônica de Kali Uchis, americana criada na Colômbia que usa ritmos de sua infância para incrementar o repertório. Em show em São Paulo neste domingo, ela foi aplaudida pelo público brasileiro ao dizer que não é fácil ser latina nos Estados Unidos. “Somos trabalhadores. Somos humanos.”

São frequentes as reportagens que falam sobre uma crise de criatividade se abatendo sobre a música americana. Uma investigação da revista The Atlantic discute se estamos diante da pior era da cultura popular nos Estados Unidos, e outra do jornal The New York Times traz uma ilustração em que cartazes de Madonna, Elvis Presley e Metallica são substituídos por outros de Bad Bunny, Rosalía e do grupo sul-coreano Blackpink.

O jornalista americano Kelefa Sanneh, autor do livro “Na Trilha do Pop”, publicado no Brasil pela Todavia, tocou no mesmo assunto, em reportagem da revista The New Yorker. Em entrevista, ele diz que a música feita fora dos Estados Unidos nunca foi tão proeminente, se compararmos com os anos 1970, 1980 ou 1990, e atribui isso ao streaming. “Hoje é fácil”, ele diz. “Se quiser, posso ouvir ‘Feliz no Simples’, do MC IG, ou Babalwa M, da África do Sul.”

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

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