Carnaval de SP: 1º dia de desfiles exalta o poder feminino, a luta pela terra e a força dos orixás
Como se proteger no carnaval? Veja dicas de segurança
Acessórios físicos e proteções digitais para o celular podem ajudar durante os blocos. Crédito: Mariana Cury/Estadão
Sete escolas cruzam a avenida nesta sexta-feira, 13, abrindo a disputa pelo título do carnaval paulistano de 2026.
O Grupo Especial deu início os desfiles no Sambódromo do Anhembi com uma primeira noite marcada pela diversidade temática, que vai do protagonismo feminino à ancestralidade, passando por lutas sociais, astrologia e espiritualidade.
Com noite de tempo firme e arquibancadas cheias, todas as escolas conseguiram cumprir o tempo máximo regulamentar e finalizaram os desfiles dentro de 1h10.
Força das mulheres negras abre o Carnaval de São Paulo 2026
“Delírio!”, “sonho se tornando realidade”. Foi assim que integrantes da estreante no Grupo Especial, Mocidade Unida da Mooca, descreveram o momento histórico vivido no desfile. “Desde que a escola existe, todo mundo está esperando esse momento, e chegou!”, celebrou Eduardo Okamoto, diretor artístico da agremiação.
Inspirado nas sociedades tradicionais africanas, a escola da zona leste apresentou o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, guardiãs da sabedoria e do equilíbrio. O desfile prestou homenagem às mulheres que transformam e sustentam comunidades com força espiritual, intelectual e cultural.
A Mooca abriu a noite com uma representação do Orixá Exu pisando primeiro na avenida, desta vez, interpretado por uma mulher. A escola encantou o público e exaltou as origens afro-brasileiras com representações e homenagens as Yabás, Orixás femininas.
Também estreante no carnaval de São Paulo, Conceição Evaristo, desfilou pela escola e destacou a importância do tema apresentado na avenida. “Pra mim foi uma honra, sair do Rio e vir experimentar o Carnaval de São Paulo com esse enredo que é uma lição. O carnaval é uma aula pública e dar essa aula falando do Gèlèdés e de Sueli Carneiro, é estar representando mulheres negras”, disse.

Escola estreante apresentou o enredo ‘Gèlèdés – Agbara Obinrin’, guardiãs da sabedoria e do equilíbrio. Foto: Nelson Almeida/AFP
Colorado do Brás exalta o poder místico das mulheres
Com o enredo “A Bruxa Está Solta! Senhoras do Saber Renascem na Colorado”, a Colorado do Brás exaltou o conhecimento ancestral e o protagonismo feminino. A escola ressignificou a figura da “bruxa”, a transformando em símbolo de sabedoria, resistência e conexão com a natureza.

A Escola de Samba Colorado do Brás. Foto: Nelson Almeida/AFP
Logo no abre-alas, a agremiação denunciou a tortura e o silenciamento de mulheres, com as alas seguintes marcadas por um visual envolto em misticismo, magia, cura e espiritualidade dando o tom do desfile.
Mais do que o estereótipo comumente associado às bruxas, a escola também apresentou personagens famosas da cultura popular como a Bruxa do 71, a Cuca e Úrsula, vilã da Pequena Sereia, que apareceram em um carro alegórico dedicado à elas.
A atriz Fabi Bang cruzou a avenida no carro caracterizada como Glinda, personagem que vive na versão brasileira do musical Wicked.

O carro de bruxas da ficção contou com a presença das atrizes do musical Wicked. Foto: Nelson Almeida/AFP
Nas arquibancadas, a torcida acompanhou em coro o samba-enredo e vibrou com a evolução da escola, que concluiu sua passagem pela avenida com tranquilidade.
Dragões da Real leva guerreiras da floresta para o Anhembi
Com o samba-enredo na ponta da língua e a comunidade confiante no título, a Dragões da Real levou à avenida o primeiro enredo de temática indígena de sua história. Inspirada nas lendárias guerreiras da Amazônia, as Icamiabas, a escola apresentou “Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência”.
Com carros de grande impacto visual, alguns com efeitos de movimento, luz e fumaça, como o dragão de 9 metros que marcou o abre-alas, a Dragões da Real apostou em uma narrativa conduzida pela força das imagens. Alegorias inspiradas na fauna e na flora amazônicas atravessaram a avenida integrando o enredo.
Ao longo do desfile, a escola desenvolveu um discurso sobre coragem, liberdade e protagonismo feminino, exaltando a ancestralidade e a força dos povos originários.

Famoso dragão da escola voltou à avenida após dois anos. Foto: Rariane Costa/Estadão
Márcio Santana, Diretor-Geral de Carnaval se emocionou ao finalizar a passagem pela pista e classificou o desfile como um dos maiores da história da agremiação. “Cada um desses três mil componentes deu a vida, sangue e suor, as lágrimas, em prol desse desfile. Todo mundo está saindo daqui realizado”, disse.
Tatuapé planta poesia para colher reflexão sobre a terra e a desigualdade
Em “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra!”, a Acadêmicos do Tatuapé transformou o chão do Anhembi em campo fértil de debate social.
O enredo tratou da luta pela reforma agrária e da dignidade do trabalhador em um desfile de tom político e poético, com alegorias que exaltaram o campo, a coletividade e a esperança.
O abre‑alas mostrou o Deus Tupã conectando a mitologia à vida e à produção agrícola. Atrás dele, alas representaram milho, café, algodão além de animais como abelhas e joaninhas, todos presentes na agricultura brasileira, amplamente representada na avenida.
O desfile também abordou os problemas da terra, trazendo referências ao desmatamento, às pragas e ao uso de agrotóxicos.

Acadêmicos do Tatuapé é a quarta escola da noite. Foto: Rariane Costa/Estadão
Eduardo dos Santos, um dos presidentes da escola, destacou a importância dos componentes que conduziram a escola cantando alto o samba-enredo e afirmou estar contente com as escolhas e com o desenvolvimento da escola.
“Fizemos o trabalho de um ano inteiro com muito sacrifício e luta mas com o mesmo objetivo: fazer mais uma vez o desfile da vida. O que vai acontecer daqui pra frente depende de muitos detalhes mas temos certeza que fizemos um grande desfile, essa emoção é o maior sintoma disso”.
Rosas de Ouro mira o céu e faz do universo o seu destino
Com o enredo “Escrito nas Estrelas”, a atual campeã, Rosas de Ouro, apresentou uma viagem pelo cosmos, costurando astrologia, espiritualidade e o desejo humano de compreender seu lugar no universo. A escola manteve o brilho característico: entre constelações, signos e sonhos, transformou o sambódromo em uma galáxia em tons de rosa.
A agremiação já iniciou o desfile com uma punição de 0,5 ponto, aplicada pela Liga das Escolas de Samba de São Paulo por atraso na entrega das pastas técnicas.

Rosas de Ouro apresentou o enredo ‘Escrito nas Estrelas’. Foto: Rariane Costa/Estadão
De acordo com a avaliação da presidente Angelina Basílio, a penalidade não abalou a energia da comunidade durante o desfile. “A escola estava impecável, os carros todos em ordem, as alas evoluindo dentro dos limites, tudo certo. As expectativas para terça-feira são de boas energias”, afirmou.
O desfile, inicialmente programado para 3h20 começou com quase uma hora de atraso. Além dos pequenos atrasos deixados pelas agremiações anteriores, a Roseira precisou aguardar a limpeza da pista para iniciar sua passagem em busca do bicampeonato consecutivo.

Rosas de Ouro começou o desfile com menos 0,5 ponto, penalidade recebida por atraso na entrega da documetação. Foto: Rariane Costa/Estadão
Vai-Vai reconta a saga cultural e social da comunidade de São Bernardo
A tradicional Vai-Vai apresentou “A Saga Vencedora de um Povo Heróico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”, enredo que homenageou a força histórica e cultural da comunidade de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, a partir da trajetória da companhia cinematográfica Vera Cruz.
Já a luz do dia, cerca de uma hora após o previsto, o desfile levou à avenida referências à produção artística, ao cinema nacional e ao orgulho de um povo que transformou a arte em resistência.
“Foi o desfile das nossas vidas! Aqui na pista é procurar errar menos e eu espero que tenhamos errado menos e que possamos conseguir nosso objetivo de conseguir nossa décima sexta estrela para esse grande pavilhão”, avaliou Clarício Gonçalves, presidente da agremiação ao fim do desfile.

Escola entrou na avenida no raiar do dia. Foto: Rariane Costa/Estadão
Encerrando a noite, a Barroca Zona Sul desfilou “Oro Mi Maió Oxum”, homenagem à orixá das águas doces, da fertilidade e do amor, celebrando a religiosidade afro-brasileira com cores, rituais e símbolos.
O abre-alas dourado, com espelhos e bolhas de sabão perfumadas encantou o público. O desfile que encerrou o primeiro dia de apresentações trouxe em todo seu desenvolvimento o brilho dourado do ouro e referências à Orixás como Xangô, Oxóssi e Logunedé.
Fernando Godoy, Diretor de Comunicação da escola, era um dos integrantes emocionados após o fechamento dos portões. Para ele, tudo saiu conforme o esperado pela comunidade. “Não tem o que falar! Esse ano a Barroca vai estar no desfile das campeãs. Terça-feira estaremos com muita confiança na apuração e se Deus quiser voltaremos no próximo final de semana”, disse.
Os desfiles das escolas de samba de São Paulo retornam na noite deste sábado às 22h30.

Baianas da Barroca Zona Sul, escola que fechou os desfiles da primeira noite em São Paulo Foto: Rariane Costa
Veja a ordem dos desfiles e os enredos
Sexta-feira (13 de fevereiro)
- 23h – Mocidade Unida da Mooca (enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”)
- 0h05 – Colorado do Brás (enredo – “A Bruxa está solta – Senhoras do Saber renascem na Colorado”)
- 1h10 – Dragões da Real (enredo – “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”)
- 2h15 – Acadêmicos do Tatuapé (enredo – Plantar para colher e alimentar)
- 3h20 – Rosas de Ouro (enredo – Escrito nas estrelas)
- 4h35 – Vai-Vai (enredo – “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”)
- 5h30 – Barroca Zona Sul (enredo – Oro Mi Maió Oxum)
Sábado (14 de fevereiro)
- 22h30 – Império de Casa Verde (enredo – “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”)
- 23h35 – Águia de Ouro (enredo – “Mokum Amsterdã – O voo da Águia à cidade libertária”)
- 0h40 – Mocidade Alegre (enredo – Malunga Léa, Rapsódia de uma Deusa Negra)
- 1h45 – Gaviões da Fiel (enredo – “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”)
- 2h50 – Estrela do Terceiro Milênio (enredo – “Hoje a poesia vem ao nosso encontro: Paulo César Pinheiro, uma viagem pela vida e obra do poeta das canções”)
- 3h55 – Tom Maior (enredo – “Chico Xavier. Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”)
- 5h – Camisa Verde e Branco (enredo – Abre caminhos)



Publicar comentário