Tatiana Coelho de Sampaio: conheça a história da criadora da polilaminina
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Por mais de 25 anos, a professora Tatiana Coelho de Sampaio avançou suas pesquisas como costuma ocorrer em dezenas de laboratórios universitários espalhados pelo país: de forma discreta e longe dos holofotes.
Tudo mudou no segundo semestre do ano passado, quando o trabalho dela conquistou repercussão nacional e a converteu no nome que trouxe esperança para pacientes com lesões medulares que sonham em recuperar a mobilidade.
Tatiana é o rosto mais famoso por trás da polilaminina, um medicamento experimental que tem dado muito o que falar nos últimos meses – e vem sendo foco de promessas (por enquanto) exageradas que já tomam conta das redes sociais.
Chefe do Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, ela se tornou um nome conhecido dos brasileiros após a publicação da pesquisa pioneira, em agosto de 2025, indicando os potenciais do medicamento estudado por sua equipe.
Conheça um pouco mais sobre ela e o estágio atual das pesquisas.
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Trajetória acadêmica
Hoje com 59 anos, Tatiana passou a maior parte da sua carreira acadêmica na UFRJ, onde é professora desde 1995. Tendo cursado da graduação em ciências biológicas ao doutorado em ciências na instituição pública carioca, ela também fez estágios de pós-doutorado na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e na de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha.
Desde os anos 1990, ela liderou pesquisas sobre a laminina, uma proteína presente naturalmente no organismo, que tem o potencial de atuar na modulação celular e regenerar tecidos nervosos. A polilaminina, por sua vez, é um polímero elaborado a partir dessa proteína e que, aplicado diretamente à coluna, seria capaz de devolver os movimentos (de forma total ou parcial) a quem sofreu lesões medulares.
Embora trabalhos do grupo da UFRJ nesse sentido venham avançando há décadas, foi apenas com a divulgação dos resultados promissores no ano passado que o nome de Tatiana Sampaio passou a circular entre o público geral. Muitas vezes, é citado, até, como uma esperança brasileira para ganhar um futuro Nobel de Medicina.
Apesar de trazer grande expectativa, porém, a polilaminina ainda é um medicamento experimental cuja aplicação em seres humanos precisa passar por uma série de estudos até ser confirmada como uma alternativa viável e segura para os pacientes.
O que falta entender sobre a polilaminina
Você deve ter lido histórias de pessoas que realizaram tratamentos com polilaminina e, em alguns casos, inclusive tiveram bons resultados. O que talvez não saiba é que esses poucos registros ocorreram através da judicialização.
Ou seja: situações em que a pessoa recorreu à Justiça para ter acesso a uma droga que ainda não está disponível e, neste caso, não foi devidamente aprovada para uso em seres humanos. Há riscos, muitas vezes desconhecidos, envolvidos nessas aplicações.
Nesta reportagem, você pode ler em detalhes os motivos pelos quais ainda é preciso ter bastante cautela frente aos resultados preliminares já conhecidos.
Em linhas gerais, hoje ainda não é possível afirmar que o remédio é seguro e eficaz para uso em seres humanos.
Os dados existentes não passaram pela revisão por pares, e a ausência de testes controlados e comparados a um placebo não permite garantir que eventuais melhoras realmente vieram do remédio. Isso porque cerca de 15% das pessoas com lesões medulares completas podem recuperar as funções motoras naturalmente, sem qualquer medicamento.
É preciso estudar mais para entender se a droga faz uma diferença estatisticamente relevante.
Próximos passos das pesquisas
Somente em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou um estudo clínico para avaliar a segurança da polilaminina em pessoas. É uma pesquisa de “fase 1”, a mais inicial, e tem o objetivo mais elementar da ciência médica: garantir que o remédio não faça mais mal do que bem.
Ele será realizado em cinco pessoas que sofreram lesões medulares completas há menos de 72 horas no momento de uso do remédio.
Aliás, esse é outro obstáculo a vencer no futuro: não se sabe o potencial do medicamento em pessoas com as chamadas lesões crônicas, muito mais antigas do que essa janela de 72 horas. O tratamento para essas situações só foi testado em cães.
É só depois de passar por essa etapa que as fases seguintes poderão ser executadas, quando enfim é testada a eficácia do medicamento, em grupos cada vez maiores e por períodos mais longos. Para atingir o padrão-ouro da ciência, serão necessários estudos com grupo controle e cegamento duplo, quando nem os pesquisadores nem os pacientes sabem quem recebeu um placebo.
Como costuma ser com descobertas que prometem revolucionar a ciência e a medicina, hoje ainda há mais perguntas do que respostas. O que não quer dizer que a molécula tão celebrada não mereça nossa atenção nos próximos anos, mas que a evolução do conhecimento, infelizmente, nem sempre é tão rápida quanto gostaríamos.
A própria história das pesquisas a partir da laminina, que se iniciaram três décadas atrás e ainda precisam avançar mais, é uma prova disso.



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