Apesar da pressão dos EUA, petróleo russo segue na pauta de importações indianas | Mundo
Apesar de ter caído mais de 40% nos últimos seis meses, as cargas de petróleo bruto russo continuam representando um quarto do total das importações indianas da commodity. Isso apesar de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, renovar sua ameaça de elevar novamente as tarifas sobre a Índia para restringir ainda mais os embarques.
Nova Déli reduziu drasticamente sua dependência do petróleo bruto russo no último semestre, com a participação de Moscou no total das importações de petróleo bruto caindo de 44% em junho, o pico das remessas mensais da Rússia para a Índia em 2025, para cerca de 25% em dezembro, segundo a provedora de dados e análises Kpler. Mesmo assim, a Rússia permaneceu como maior fornecedor de petróleo bruto da Índia naquele mês.
Na segunda-feira, Trump disse que os Estados Unidos poderiam “aumentar as tarifas sobre a Índia muito rapidamente” se o país não reduzisse ainda mais as compras da Rússia. No final de agosto, ele aumentou as tarifas americanas sobre as exportações indianas de 25% para 50%, tornando-as entre as mais altas do mundo, devido à compra de petróleo bruto russo por Nova Déli, que, segundo ele, ajuda a financiar a guerra na Ucrânia.
A Índia tem tentado diversificar suas fontes de petróleo bruto nos últimos meses. Embora os carregamentos de fornecedores tradicionais como Iraque, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que contribuíram com 44% do total das importações indianas de petróleo bruto em dezembro, tenham permanecido relativamente estáveis, países como Kuwait e Brasil viram seus embarques para a Índia aumentarem, representando juntos pouco mais de 10% do total das importações em dezembro.
As exportações de petróleo bruto do Kuwait para a Índia cresceram 140% de junho para dezembro, atingindo 290 mil barris por dia (bpd), enquanto os embarques do Brasil, que permaneceram zerados entre junho e agosto, dispararam para 246 mil bpd em dezembro, de acordo com Kpler.
O Brasil também foi atingido por tarifas de 50% impostas por Trump, que se opõe ao fortalecimento do bloco Brics, que inclui Brasil e Índia.
A Índia chegou a aumentar suas compras de petróleo bruto americano, que mais que dobraram entre setembro e outubro, após a entrada em vigor da tarifa de 50% sobre a Índia em 27 de agosto, segundo dados da Kpler.
“Tudo o que os diplomatas indianos queriam saber era sobre como estavam comprando menos petróleo russo: ‘Você poderia dizer ao presidente para aliviar as tarifas?’”, disse Lindsey Graham, aliado de Trump, na segunda-feira, enquanto o acompanhava no Air Force One.
Graham é o autor de um projeto de lei que permitiria ao presidente dos Estados Unidos impor sanções secundárias a países que compram petróleo e gás da Rússia.
Em novembro, o conglomerado Reliance Industries anunciou que havia interrompido a importação de petróleo bruto russo para sua refinaria em Jamnagar — a maior da Índia — em resposta às sanções. Na terça-feira, a Índia negou uma reportagem da Bloomberg de que três navios-tanque carregados com petróleo bruto russo estariam a caminho da refinaria, acrescentando que não espera nenhum carregamento em janeiro.
Apesar da diversificação, o petróleo bruto russo continua a oferecer uma série de benefícios, incluindo seus preços competitivos, compatibilidade com as refinarias indianas e relações de fornecimento de longa data, afirmou Sumit Ritolia, analista-chefe de refino e suprimentos da Kpler.
Além disso, os volumes de importação de petróleo bruto russo podem “se recuperar a partir de janeiro”, após atingirem o nível mais baixo em dezembro, previu Ritolia. “Na ausência de sanções secundárias mais amplas, o petróleo bruto russo provavelmente permanecerá estruturalmente integrado à matriz de exportações da Índia.”
Os comentários de Trump sobre tarifas vieram após a prisão do presidente venezuelano Nicolás Maduro por Washington — uma medida que pode potencialmente remodelar os mercados de petróleo. O presidente americano prometeu explorar as reservas de petróleo do país — as maiores do mundo —, embora sua infraestrutura esteja degradada devido a anos de subinvestimento.
Segundo Kpler, a Índia não importa petróleo venezuelano desde maio, e um aumento nas exportações do país sul-americano dificilmente beneficiaria significativamente a Índia, já que poucas refinarias locais, como o complexo de Jamnagar da Reliance e o projeto Vadinar da Nayara Energy, conseguem processar o petróleo bruto pesado venezuelano, mais difícil de refinar, afirmou Ritolia.
“Investimentos planejados para aumentar a complexidade de refino poderiam expandir a capacidade da Índia de processar petróleo bruto pesado venezuelano”, disse ele. “Até lá, a retomada do fornecimento venezuelano atenderia principalmente um subconjunto de refinarias indianas, limitando o potencial de consumo agregado, apesar da maior disponibilidade.”
Há meses, a Índia tenta equilibrar a política de apaziguamento de Trump com as fortes relações com a Rússia — que se estendem por décadas — bem como com preocupações internas, como a proteção do setor agrícola, no qual os Estados Unidos desejam maior acesso ao mercado.
Embora o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, tenha feito apelos privados pela paz na Ucrânia e até mesmo visitado o país devastado pela guerra, ele também recebeu o presidente russo, Vladimir Putin, para uma visita de Estado no início de dezembro.



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