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após mudança criticada por alunos, 92 de 93 cursos de Medicina registram nota de corte mais alta

após mudança criticada por alunos, 92 de 93 cursos de Medicina registram nota de corte mais alta

O Sistema de Seleção Unificado (Sisu) 2026 registrou crescimento na nota de corte de 92 dos 93 cursos de Medicina em disputa, na comparação com 2025. Considerando as últimas edições desde 2022, 56 universidades — 60,2% do total — atingiram o maior patamar mínimo para ingresso do período. Esse foi o primeiro Sisu no qual o Ministério da Educação (MEC) liberou que os alunos pudessem utilizar seus desempenhos nas últimas três provas (2023, 2024 e 2025) do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) — o que, segundo especialistas, levou ao aumento na competição.

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A média geral de pontuação para conseguir uma vaga no curso de Medicina, considerado o mais concorrido, subiu nove pontos de um ano para o outro, de 795 para 804. Os números são de um levantamento exclusivo elaborado para o GLOBO pelo estatístico Frederico Torres, mestre pela UnB e criador do curso Mente Matemática, com dados obtidos no Sisu. Somente a Universidade Estadual de Maringá (UEM) apresentou queda na nota em 2026.

A nota de corte é a pontuação mínima exigida em determinado curso para que um candidato seja aprovado na chamada regular e varia de acordo com cada modalidade. Entre dois anos, ela pode flutuar sendo influenciada por uma série de fatores externos à qualidade dos estudantes, como a diminuição ou crescimento na oferta de vagas. A Universidade Federal de Uberlândia (UFU), por exemplo, registrou o aumento mais drástico no Sisu atual, passando de 799 para 842, um crescimento de 43 pontos na nota de corte. Segundo Torres, no entanto, o principal fator para esse caso tão acentuado foi uma mudança nos pesos que cada prova têm no cálculo final da nota.

Acesso mais difícil — Foto: Editoria de Arte

Contudo, na avaliação do especialista, o crescimento generalizado das notas de corte indica que a mudança na regra do Sisu foi a principal responsável pela elevação significativa no sarrafo. Em novembro, o MEC definiu que o sistema de seleção de 2026 seria o primeiro a aceitar mais de uma nota do Enem para concorrer às vagas. O anúncio gerou uma série de reclamações, principalmente de estudantes que estão terminando o ensino médio. Na nova regra, eles só podem competir com uma nota, enquanto os concorrentes mais velhos podem usar até três caso tenham participado do exame.

— As universidade federais de Minas Gerais (UFMG), do Ceará (UFC) e do Piauí (UFPI), por exemplo, são importantes polos de competição e não tiveram mudança alguma em 2026, mas passaram por um relevante aumento nas notas de corte. Elas tiveram pequenas flutuações nos quatro anos anteriores, e, agora, apresentaram variações entre 8 e 11 pontos, o que é bastante significativo em cursos concorridos como o de Medicina, em que poucos décimos já definem aprovados — diz Torres.

Em nota, o MEC argumentou que “modernizou” o Sisu neste ano, “com foco em segurança da informação, estabilidade operacional, integridade dos dados e aprimoramento da experiência dos usuários”. Para a pasta, o aumento na nota de corte decorre “exclusivamente da dinâmica de concorrência entre os candidatos, considerando notas utilizadas, opções de curso, modalidades de concorrência e número de vagas”.

Em novembro, o ministério havia sustentado que a mudança no Sisu amplia a probabilidade de preenchimento das vagas ofertadas. Em 2024, por exemplo, o Sisu ofereceu 264 mil cadeiras nas universidades. Dessas, 23 mil não tiveram concorrentes na primeira seleção — elas estão focadas no Nordeste e no Sudeste, e 40% são de Licenciaturas.

Na avaliação de Frederico Torres, o aumento da nota de corte não é “necessariamente” ruim. No entanto, a nova regra do MEC ampliou a possibilidade de que as listas finais sejam distorcidas por pessoas que não estejam de fato interessadas em se matricular, os chamados colecionadores de aprovação. São pessoas com notas altas que se inscrevem no Sisu para aumentar o número de vezes em que conseguiram uma vaga — o que ajuda a vender cursos de preparação para o Enem — ou para inflar cursinhos e escolas nos quais estudaram, também com o objetivo de atrair novos alunos.

— Só vamos saber se isso de fato aconteceu nos próximos meses, acompanhando o comportamento das listas de espera — pondera o professor.

Uma análise de Frederico Torres na edição do Sisu que selecionou alunos para o segundo semestre de 2023 — o último que teve duas seleções no mesmo ano — mostra que 46 dos 50 aprovados em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) já tinham sido aprovados em outros cursos anteriormente, sendo 43 também para a formação médica e três na própria UFRJ. Além disso, Torres descobriu que, da lista inicial de 50 aprovados, apenas sete fizeram a matrícula.

— O Sisu com duas edições no ano, como aconteceu até 2023, propiciava esse problema. E ele é agora novamente potencializado pela atual regra de aceitar as três últimas notas no Enem — avalia Torres.

O pesquisador planejava repetir o levantamento de 2023 na edição atual do Sisu, mas, pela primeira vez nos últimos anos, o MEC não divulgou de forma centralizada a lista dos aprovados — justamente após a mudança da regra que causou uma série de críticas à pasta. Ao GLOBO, o ministério comandado por Camilo Santana definiu a novidade como um “aprimoramento” alinhado “às diretrizes de proteção de dados pessoais e de segurança da informação”. Sobre as universidades que publicaram suas próprias listas, o órgão sustenta que isso “decorre de procedimentos próprios, no exercício de sua autonomia administrativa, a partir dos resultados oficiais do processo seletivo”.

Torres, por sua vez, argumenta que o Sisu é um concurso público e que a publicação dos aprovados é uma questão de “transparência e lisura”:

— Além disso, ter essa informação ajuda aos que não foram aprovados decidirem o que fazer. O aluno que ficou na lista de espera pode pensar: “Se eu estou concorrendo numa UFMG, que tem 160 vagas, e cerca de 50 já foram aprovados nas edições anteriores do Sisu, talvez algumas pessoas ali só estejam, de fato, querendo mais uma aprovação”. E isso poderia fornecer insumos para que o aluno tome uma decisão mais assertiva sobre em qual lista de espera concorrer.

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

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