Autor do hit ‘O baiano tem o molho’, que embala Wagner Moura, O Kannalha prepara novo disco, faz show no Rio e fala de seu borogodó com a ‘dança da batedeira’
No palco, um artista com pouquíssima roupa e sem vergonha de explorar a própria sexualidade faz a “dança da batedeira”, um vaivém frenético que joga o quadril para frente e para trás, ao som do pagodão baiano de duplo sentido que canta.
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No off, um menino tímido, simples e periférico, criado pela mãe (Rosalina), pela tia e mãe de santo (Renilda), e pela avó (Jandira), que honra suas raízes fincadas em Camaçari, na Bahia, onde nasceu, há 28 anos. O Kannalha e Danrlei Orrico são personalidades opostas que dividem o mesmo corpo sarado.
É a segunda que aparece em videochamada com a repórter para essa entrevista. Danrlei está sem camisa. O peito nu destaca a tatuagem como nome da filha, Dandara, e a guia roxa da orixá Nanã pendurada no pescoço.
Ele sorri sem jeito e conta ainda estar está sob os efeitos da “realização de um sonho”. É como ele define a noite da última terça-feira (4), quando cantou seu hit “O baiano tem o molho” ao lado de Wagner Moura, na pré-estreia de “O agente secreto”, em Salvador.
A música, que tomou conta não só da Bahia, mas da internet, tem embalado a chuva de memes da maratona do ator na divulgação do longa. Tudo começou, conta Bernardo Lessa, gerente de lançamento da Vitrine Filmes, quando cantaram a canção espontaneamente assim que Wagner surgiu na sessão oficial do filme em Toronto.
Foi tão divertido que a equipe resolveu assumir a música num vídeo oficial de divulgação. Funcionou tanto que a ação resultou no convite para o show de Kannalha na tal premiére na capital baiana. Lá, Wagner colocou ainda mais lenha na fogueira fazendo, devagarinho, o passo da batedeira na sacada do Cine Glauber Rocha, enquanto O Kannalha mandava a letra: “O baiano tem o molho/ Nós já nasce com a pimenta na cabeça da chibata/ E o dendê que molha o corpo todo”.
— A batedeira dele é mais tranquila, sofisticada — brinca o cantor. — Há vários tipos de molho do baiano, que não nasce, estreia, né? — continua ele, caindo na gargalha.
“Encontro de milhões!”, “a junção que todo mundo queria ver!”, escreveram internautas diante das imagens dos dois que espalhadas pela redes sociais.
— Conheci ele lá, achei querido e talentoso, renovação massa do pagode baiano — diz Wagner sobre o artista que, por sua vez, define o filme como “um amuleto”.
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Bem antes desse dia, O Kannalha — dono de outros hits como “Traficante de desejos”, “Verão doce” e “Fraquinha” e trabalhos ao lado Pabllo Vittar, Xamã e Pedro Sampaio —, já conquistava multidões com seu borogodó.
Mês passado, protagonizou show histórico no Afropunk, no Rio, com direito a participação fofíssima da avó. Dona Jandira dançou no palco diante do neto derretido, ajoelhado a seus pés.
É essa mistura de sacanagem com fofura, dengo com afeto, que dá contornos particulares a esse artista, figura importante e acolhedora nos últimos anos de Preta Gil.
— A gente viveu um amor e uma amizade verdadeira e linda. Não gosto de falar muito porque criaram títulos desrespeitosos num momento em que gente estava batalhando, lutando numa troca de carinho. Hoje, consigo viver com esse amor no meu coração. Em dias difíceis, minha família me apoia — conta. — Preta foi uma das maiores mulheres negras desse país, voz forte que ajudou muita gente.
Foi Preta aliás, quem apresentou Danrlei à atriz Alice Carvalho, que está no elenco de “O agente secreto” e virou amiga do artista.
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— Ela fez nascer esse carinho recíproco entre nós — lembra Alice, que se tornou admiradora do cantor. — Acho revolucionária a maneira como convivem no corpo dele o dionisíaco e a doçura. É um cara carinhoso e bom demais no que faz, é o som da rua e do quadril.
Antes de se tornar o “maridão” — é assim que ele se apresenta diante das “maridonas”, como apelidou a mulherada enlouquecida na fila do gargarejo de suas apresentações —, Danrlei trabalhava com a mãe entregando comida em sua bicicleta. Desta forma, fortalecia a economia do “Jandirão”, apelido do condomínio familiar capitaneado pela avó e onde também mora a tia.
Em 2000, em meio à pandemia, passou a se dedicar profissionalmente à música, universo em que já atuava desde os 13 anos, fazendo bicos como percussionista. Um talento que começou a ser gestado no quintal da própria casa, onde batia na palma da mão durante os sambas da família. Os parentes reconheceram o dom e não demorou muito para enfiarem instrumentos na mão do menino, filho de pai baterista.
Era uma época em que ele e amigos iam de van para os shows que desejavam assistir. No caminho, cantavam interpretando papéis: tinha O Procurado, o Vigarista, O Sinistro e… O Kannalha. Ao encarnar essa energia, o tímido Danrlei se escorava no personagem e ganhava coragem e liberdade para puxar o repertório safado – ou, como ele define, “ousado, com tom de vilão, obscuro” – que vinha à cabeça. E dá-lhe palavrão.
Em 2023, o vento começou a soprar ainda mais a favor com o single “Penetra”, remixado pelo DJ Pedro Sampaio no álbum “Noitada”, de Pabllo Vittar. A música estourou em todo canto. Outro marco veio no mesmo ano, com sua estreia no carnaval de Salvador, onde repetiu a dose em 2024, ano em que participou do Festival de Verão (Salvador) e de Inverno (em Vitória da Conquista). Depois, veio o Rock in Rio.
Tudo isso tendo como base que abusa da linguagem sexual e dos palavrões. O combo que, muitas vezes, impõe barreiras comerciais e dificulta a execução nas rádios e em programas de TV. Consciente disso, o artista deu uma suavizada nas palavras sem arredar pé de fazer o que acredita.
— Sou um jovem negro periférico cantando pagodão e com o nome artístico de Kannalha. Tudo isso já é uma barreira em si que motiva preconceitos. Muita gente já discrimina sem saber a essência. A Bahia sempre teve música de duplo sentido. Lembra de “o pinto do meu pai fugiu com a galinha da vizinha”?, “Olha o badalo do negão/ badala, badala, badala”, ou o “joga ela no meio, mete em cima mete embaixo”, do É o Tchan?. O que faço é apenas a evolução disso — analisa. — E estamos conseguindo passar a mensagem com a mesma energia, porque a Bahia fala assim mesmo, desse jeito. Canto a nossa realidade. A frase “já nasce com a pimenta na cabeça da chibata”, para muitos, pode soar vazia, mas, para mim, tem muito sentido. É a ousadia do baiano. Mexe para você ver o que vamos dizer. De cara alguém vai responder: ‘É a minha chibata!”. Podemos mudar milímetros a música, mas não perder a essência.
Nessa pressão o artista virou o ano de 2025, e vai fazer o mesmo em 2026, com o “O molho – ensaio do maridão”, que vai acontecer dias 15 e 29 de janeiro, na Praça das Artes, no Pelourinho. Antes disso,, até o fim do ano, lança novo disco. Antes ainda, na próxima sexta-feira (14), será a atração principal que marca o retorno da Festa Axé.
— O Kannalha está em uma trajetória de ascensão meteórica, é o nome do pagodão baiano do momento. Ele tem carisma, tem talento e tem o molho. A batedeira é um fenômeno e vai pegar fogo aqui —aposta o jornalista Pedro Henrique França, um dos fundadores da Axé. — Acredito que vai ser o artista mais bombado desse verão e do carnaval. E ainda é a nossa trilha sonora da campanha ao Oscar. Pra gente é uma honra trazer ele nesse momento radiante da sua história. Torço para que seu desejo de fazer um trio no Rio no carnaval se realize.
— Vou levar o molho e o protagonismo da Bahia para nossos muitos amigos cariocas. Além do pagodão que, de fato, toca nas periferias de Salvador, faremos axé, samba reggae e samba de roda. O Rio que nos aguarde — afirma ele que, tudo indica, deve assumir um trio no carnaval do Rio, fazendo, possivelmente, o trajeto do Bloco da Preta, no Centro da cidade.



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