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Barragens libertaram em dois dias água que equivale ao consumo de Lisboa em três anos | Tempestade Kristin

Barragens libertaram em dois dias água que equivale ao consumo de Lisboa em três anos | Tempestade Kristin

Em dois dias, foi preciso libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos (m3) de água das albufeiras de todo o país, por causa da tempestade Kristin, para provocar “cheias controladas, para os campos agrícolas, e evitar cheias descontroladas”, disse ao PÚBLICO José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa de Ambiente (APA). É uma quantidade que equivale a três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes. “Estamos quase em guerra”, da APA.

A preocupação tem sido aumentar a capacidade de encaixe das albufeiras, para acomodar a precipitação esperada já a partir deste domingo, com a passagem de uma nova frente, e durante a semana, explicou ao PÚBLICO Pimenta Machado. Após anos de seca, agora as albufeiras estão muito cheias.

Mas as descargas preventivas em várias barragens portuguesas não começaram a ser feitas agora, só depois da passagem da depressão Kristin. “Começaram pelo menos há duas semanas”, disse Pimenta Machado.

“Tivemos várias depressões seguidas e pouco espaçadas entre elas, Ingrid, Josef, Kristin, o que nos deu menos margem para ir calibrando, usar as albufeiras para minimizar os riscos de cheias nas bacias hidrográficas.” Mas isso foi sendo feito: até na barragem da Bravura, em Lagos, que teve níveis críticos de armazenamento entre 2023 e 2024, com apenas 10%, começaram a ser feitas descargas.

A ideia é aproveitar “esta janela de tempo entre a Kristin e a nova frente que entra neste domingo, e que irá crescendo em intensidade na madrugada de segunda-feira, preparando as zonas mais vulneráveis”, explicou o presidente da APA. A Protecção Civil e os municípios foram alertados e o Exército está no terreno. Como grande parte dos rios portugueses vem de Espanha, tem de haver articulação: “Trocamos informações de hora em hora. Em Espanha, também há alertas vermelhos de precipitação, para o Douro e o Tejo”, salientou.

“Estamos numa fase muito complicada porque, para além das chuvas e depressões seguidas, tivemos muita neve na Serra da Estrela, e degelo, solos saturados”, alertou.

Os incêndios que tanto massacraram a zona Centro no Verão criam agora dificuldades adicionais: “O solo queimado é mais vulnerável. Não tem água, não tem vegetação. A Serra do Açor ardeu toda, os solos sem vegetação escorrem para o rio Alva, que depois vai dar ao Mondego, é uma pressão adicional sobre o escoamento das águas. Tudo isto torna a gestão da situação muito complicada”, destacou o presidente da APA. “É um cocktail de circunstâncias.”

Mondego

O Mondego é um dos mais preocupantes. “Sabemos que o Mondego é sempre um rio muito difícil”, disse Pimenta Machado. “Ainda há muita água que vai cair da precipitação que está prevista”. Por isso está a ser libertada água, para tentar evitar as cheias descontroladas, explicou.

Tentou-se ganhar capacidade na barragem da Aguieira, a maior estrutura. “Correu muito bem, baixámos imenso”, contou o responsável da APA. “Estamos a ganhar encaixe também na Barragem das Fronhas, no Rio Alva, que depois conflui para o Mondego. O caudal, no Sul de Coimbra, nunca deveria ultrapassar o limite de segurança de 2000 metros cúbicos por segundo, e é controlado ao minuto, disse.



Descarga controlada na barragem de Fronhas
APA

Douro

As maiores preocupações na região do Douro são com os rios Vouga e Águeda. “Vai circular muita água no Vouga, e nestas situações o rio Águeda deixa de conseguir entrar no Vouga, e a cheia propaga-se para a zona urbana de Águeda. Estamos a baixar as barragens de regadio, para tentar controlar a cheia”, disse.

“Estamos a tentar aumentar a capacidade de encaixe de todas albufeiras”, nos afluentes do Douro, no Varosa, no Távora, no Tua, acrescentou.

Em Gaia, a Lua é um problema. “Vamos procurar controlar o caudal para haver um desencontro com o pico da maré, para não haver cheias e inundações. Com a Lua Nova, a a maré vai ter maior amplitude, mas a vazante também será maior. Portanto, vamos aproveitar a vazante para nos livramos da água”, explicou Pimenta Machado.

Tâmega

Há dois municípios que preocupam mais, Amarante e Chaves, a gerir com as barragens do Torrão e Daivões, e todas as da Cascata do Tâmega. “Na semana passada, ficámos a 35 centímetros de saltar fora das margens em Amarante. Agora, temos de gerir o caudal com Espanha, para controlar a altura do rio em Amarante, de maneira a que não inunde as casas, quer ali quer em Chaves”, comentou Pimenta Machado.





O Cais da Régua teve uma inundação na semana passada, mas nada muito fora do habitual, salientou. “É outra situação que nos merece particular cuidado.”

Cávado

“Estamos a baixar as albufeiras, a da Caniçada em particular”, explicou Pimenta Machado.

Mas também o caudal do rio Homem está a ser modulado, em antecipação de mais precipitação. “Estamos a tentar que, no encontro entre o rio Homem e o rio Cávado, o caudal nunca ultrapasse 700 m3 por segundo, porque a partir daí começa a saltar fora, e a inundar Vila de Prado”, salientou.

Lima e Minho

A bacia do rio Lima responde muito rápido à precipitação. “Temos encaixe na barragem do Alto Lindoso. Estamos preocupados é com Ponte da Barca, mais a jusante”, disse Pimenta Machado. “No rio Vez não temos nenhuma barragem, aí é mesmo só lançar alertas e monitorizar”.

Na semana passada, a colaboração com Espanha correu bem, houve apenas uma “pequena cheia em Monção, nas termas das Caldelas”, contou.

Tejo

Há muita água no Tejo, e Espanha fez descargas neste fim-de-semana. “Estamos a libertar as albufeiras da Cascata do Zêzere, Castelo de Bode e Cabril, para termos capacidade de encaixe e evitar cheias a jusante de Almeirim, Golegã, Santarém”, contou.

Se o caudal passar muito dos 3000 m3/segundo na estação de controlo em Almodôvar, o rio começa a invadir as lezírias. “Vamos tentar que não ultrapasse muito isso. Mas o Tejo já teve cheias muito fortes, com 10 mil m3/s, 3000 ainda está longe”, sublinhou Pimenta Machado.

Num aviso à população neste domingo, o Comando de Emergência e Protecção Civil de Lisboa e Vale do Tejo alerta para a possibilidade de inundações em zonas urbanas, causadas pela acumulação de águas pluviais por obstrução dos sistemas de escoamento, e cheias. “É expectável a manutenção dos caudais elevados debitados pelas barragens da Bacia do Tejo”, é dito.

Sado

A Kristin já provocou uma cheia em Alcácer do Sal, a primeira em mais de 30 anos. “Temos ali pequenas barragens hidroagrícolas, onde estamos a tentar ganhar encaixe. Mas há uma questão psicológica, que é estarem ali habituados a não ter água…”, contou.

Algarve e Guadiana

“Temos barragens cheias no Algarve, o que é excepcional”, disse o presidente da APA. “Houve uma cheia no rio Arade em Silves, e o Arade nunca tinha água”, sublinhou. Mas o rio já voltou ao leito. Tal como noutros locais, tenta-se controlar os efeitos da precipitação com descargas controladas.

Até no Alqueva já foram feitas descargas, mas pararam por ora. “Estamos preparados para o que aí vem, mas vai ser uma semana muito complexa”, concluiu Pimenta Machado.

Notícia corrigida às 9h35: rio Vez e não rio Verde, e nome da barragem na legenda da segunda foto

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

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