Canhão midiático, Agassi vê ‘geração Fonseca’ mais exposta: ‘Para mim, era só não ler o jornal’
Canhão midiático, Agassi vê ‘geração Fonseca’ mais exposta: ‘Para mim, era só não ler o jornal’
Crédito: Bruno Accorsi/Estadão
RIO – André Agassi foi um dos primeiros tenistas a transcender o esporte e se misturar à cultura popular. Os cabelos longos enfeitados com faixas, os carros velozes e os namoros com estrelas como Brooke Shields o tornaram uma figura de interesse para os tabloides. Hoje, os tenistas não precisam sequer viver uma vida tão intensa quanto a da lenda americana para viverem altos níveis de exposição, por mais blindados que sejam, como se vê com o brasileiro João Fonseca, que sequer atingiu o ápice da carreira.
“Para mim, era simplesmente não ler o jornal e conseguia me proteger de ter que lidar com isso. Tenho certeza de que é mais difícil hoje em dia”, afirmou ao Estadão o vencedor de oito Grand Slams, que está no Brasil para participar da cerimônia de entrega do troféu do Rio Open, cujas finais serão disputadas no domingo, 22.
O que estava escrito no jornal naqueles tempos, contudo, podia ser “chocantemente cruel”, como bem lembra o ex-tenista ao revisitar seu início de carreira. “Eu vi imagens de arquivo minhas em que um jornalista dizia na televisão: “Você se sente um perdedor, um fracassado ou um fracasso na sua carreira?”.

André Agassi se encontra com Marcelo Melo e João Fonseca no Rio Open. Foto: João Pires/Fotojump/Rio Open
Aos 55 anos, há muito o ex-tenista abandonou o invólucro de ‘bad boy’. De semblante tranquilo e fala suave, ele se dedica a palestras, inclusive em eventos corporativos no Brasil, e à filantropia voltada a educação por meio da Andre Agassi Foundation for Education, fundada em 1994.
Pensar em como era percebido pelos outros provocou muitas consequências internas ao americano. Muito preocupado com a imagem, ele chegou a usar aplique para manter o visual cabeludo quando notou a calvície precoce. Tinha medo de decepcionar o público, e hoje entende o perigo de viver sob as rédeas dos olhares alheios.
“De uma perspectiva humana, à medida que crescemos, como você sabe, a condição humana, como vimos ao longo da história, sabe, a transição da infância para a vida adulta está realmente ligada à aceitação da própria identidade. E eu tive que lidar com isso na vida pública, mas apenas com jornais e mídia tradicional, não com todas as redes sociais.”
“Então, acho que, de certa forma, provavelmente é muito difícil não encontrar sua identidade atrelada à inevitável onda de opiniões e, sabe, eu diria que as redes sociais são uma faca de dois gumes. Elas podem ser uma ferramenta poderosa para o bem e para a mudança. Mas também pode ser muito perigoso, e se você for irresponsável com isso ou se der muita importância a quem você é por meio desse tipo de acesso a você.”
André Agassi na capa da revista People, focada em celebridades. Foto: Reprodução
Agassi, portanto, não é um radical contra o uso das redes sociais. Produz, inclusive, seus próprios conteúdos, até mesmo uma série no Instagram em que análise alguns de seus antigos ‘looks’, que faziam muito sucesso na década de 1990.
“Eu acho que você precisa mostrar mais disciplina diariamente para se proteger da pressão de corresponder às opiniões ou expectativas de todos os outros. Faz sentido. Então, o conselho que eu daria aos jovens é: entenda que você pode usar isso para o bem, mas entenda que não pode estar atrelado à sua identidade”.
Em paz com o tênis para produzir documentário
O astro do tênis procura entender as novas gerações. Por isso, achou uma boa ideia produzir um documentário “autêntico, verdadeiro e honesto” sobre sua história. A produção foi anunciada pela Apple TV em janeiro deste ano e ainda não tem data de lançamento definida, mas Agassi informou que já tem mais de 60 horas de material gravado.
O livro autobiográfico do tenista, no qual ele revela uso de drogas e fala em ter ódio pelo tênis, lançado em 2009, foi best-seller. Daí a confiança de que sua caótica história gere interesse também em vídeo.
“Desde que lancei meu livro, o interesse em compartilhar minha história de vida por meio de uma plataforma diferente tem sido constante. Eu nunca tive coragem, nem estava pronto para passar por isso novamente. Mas tudo mudou há quase dois anos. Comecei a levar a sério o interesse que havia”

André Agassi vai entregar troféu de campeão no Rio Open. Foto: João Pires/Fotojump/Rio Open
“Comecei a perceber, a começar pelos meus próprios filhos, que a nova geração não lê tanto. Comecei a perceber que minhas experiências são relevantes para muitas áreas da vida, como saúde mental e desenvolvimento infantil. E percebi que a plataforma pode alcançar dezenas de milhões de pessoas”, concluiu.
O ódio que já expressou pela modalidade que transformou sua vida já não faz mais parte da identidade de Agassi. Agora, olhando com mais distanciamento para o passado, consegue se reconciliar e até se reconectar com o esporte da bola amarela, não à toa está no Rio Open.
“Conforme você envelhece, se você não vive com mais gratidão, você está fazendo algo errado. Meu apreço pelo tênis estava no ponto mais baixo em 1997, depois mudou e não parou de crescer desde então. Isso não significa que eu sempre tive a capacidade ou a disponibilidade na minha vida para me manter conectado com o esporte e de todas as maneiras que eu gostaria”, disse.
“Mas nossos filhos são sempre nossos filhos e, em sua maioria, foram criados de forma independente, com mais espaço e mais tempo. Então, eu sempre me comprometi a retribuir de maneiras que fossem possíveis e acho que as maneiras que escolhi foram, em alguns casos, ótimas experiências. Em outros casos, talvez não seja algo com que eu queira me conectar dessa forma, mas estou sempre buscando maneiras de respeitar.”



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