Caravelas-portuguesas exigem atenção redobrada nas praias do Rio
A presença de caravelas-portuguesas nas praias do Rio de Janeiro costuma gerar apreensão entre banhistas, especialmente durante o verão, quando o número de frequentadores do litoral aumenta.
Em entrevistas exclusivas ao Jornal A TRIBUNA, dois professores universitários explicaram por que esses animais aparecem com mais frequência em determinadas épocas, quais são os riscos envolvidos e como a população pode se proteger.
Riscos à saúde
Apesar de belas à primeira vista, com coloração azul-arroxeada e rosada, as caravelas-portuguesas representam um risco significativo. Abílio Soares Gomes, do Departamento de Biologia Marinha da Universidade Federal Fluminense (UFF), alerta que o animal produz a fisalitoxina, uma glicoproteína com propriedades citotóxicas e hemolíticas. Essa toxina é inoculada por meio de células urticantes chamadas nematocistos, presentes nos tentáculos, que podem atingir comprimentos superiores a 30 metros.
“Mesmo que o flutuador esteja distante e visível na superfície, a pessoa pode ser queimada sem perceber a proximidade do animal”, ressalta.
O contato com os tentáculos provoca dor intensa, sensação de queimadura e urticária. Em pessoas mais sensíveis, crianças, idosos ou indivíduos com histórico de reações alérgicas, o quadro pode evoluir para sintomas graves, como náuseas, vômitos, febre, dor de cabeça e, em situações extremas, até paradas cardiorrespiratórias.

O que fazer em caso de queimaduras?
Em caso de acidente, os especialistas são categóricos sobre o que fazer – e o que evitar. A primeira orientação é não esfregar nem coçar o local atingido, pois isso pode estimular a liberação de ainda mais toxina. Urina e água doce também devem ser evitadas, já que podem agravar a situação.
A recomendação é lavar a área afetada com água do mar, de preferência fria, e, se possível, aplicar vinagre, cujo ácido acético ajuda a neutralizar proteínas presentes na toxina. Após o vinagre, a aplicação de água quente, em torno de 45 graus, pode auxiliar no alívio da dor.
Caso restos de tentáculos fiquem presos à pele, eles devem ser removidos com cuidado, utilizando uma pinça, sempre fora da água. “Os nematocistos são microscópicos, então não é possível removê-los completamente a olho nu, mas retirar os tentáculos visíveis já ajuda a evitar novas descargas de veneno”, explica Abílio Gomes. Em todos os casos, a orientação é procurar atendimento médico o mais rápido possível.
Para evitar acidentes, os professores recomendam atenção redobrada ao entrar no mar. “É fundamental observar a água antes de nadar ou praticar qualquer atividade”, diz Gomes. Ao avistar uma caravela, a pessoa deve manter distância, sair da água e avisar guarda-vidas ou bombeiros. A mesma cautela vale para outros organismos semelhantes, como águas-vivas, que também possuem células urticantes.

O que é a caravela-portuguesa
De acordo com o Abílio Gomes, a caravela-portuguesa é um organismo típico de águas tropicais e subtropicais, vivendo, em geral, em regiões oceânicas. “Elas podem ocorrer ao longo de todo o ano.
O que acontece é que os ventos acabam transportando esses animais para mais perto da costa”, explica. Ou seja, não se trata de um fenômeno exclusivo do verão, embora nesta estação a presença delas seja mais percebida.
O professor Luis Felipe Skinner, do Departamento de Ciências da Faculdade de Formação de Professores (FFP) da Uerj, complementa que a caravela-portuguesa, cujo nome científico é Physalia physalis, pertence ao grupo dos cnidários – o mesmo das águas-vivas, corais e anêmonas.
Um dos fatores que facilita sua chegada às praias é a estrutura do próprio animal. “Ela possui uma parte do corpo cheia de ar, que funciona como uma vela, permitindo que seja empurrada pelos ventos”, afirma.
Segundo Skinner, ventos vindos principalmente das direções Nordeste e Leste, comuns no verão, contribuem para levar as caravelas em direção ao litoral, além de movimentarem águas mais quentes, ambiente favorável para esses organismos. O aumento do número de pessoas nas praias nessa época também faz crescer os registros de acidentes.
Em estados do Sul, como Santa Catarina e Paraná, os casos são mais frequentes, mas o fenômeno pode ocorrer desde o Espírito Santo até regiões mais ao sul da América do Sul, alcançando inclusive o Uruguai.
No caso específico do Rio de Janeiro, a geografia do litoral oferece uma relativa proteção. Enquanto grande parte da costa brasileira segue o sentido Norte-Sul, no estado do Rio o litoral muda para Leste-Oeste.
“Isso faz com que muitas caravelas sejam levadas paralelamente às praias, reduzindo a incidência nas áreas mais turísticas”, explica Skinner. Ainda assim, mudanças nos ventos, especialmente do Leste para o Sueste, podem favorecer a chegada desses animais às praias fluminenses.





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