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Dia Mundial do Rádio: dos Estados Unidos ao Sahel, da Amazônia às Filipinas, as vozes das ondas de rádio estão sob pressão

Dia Mundial do Rádio: dos Estados Unidos ao Sahel, da Amazônia às Filipinas, as vozes das ondas de rádio estão sob pressão

No Dia Mundial do Rádio, 13 de fevereiro, a RSF alerta para os perigos que os meios de comunicação radiofônicos enfrentam em todo o mundo, à luz de casos emblemáticos de ataques perpetrados internacionalmente nos últimos anos.

As Filipinas permanecem um dos países mais perigosos do mundo para jornalistas de rádio, embora esse meio seja uma fonte essencial de informação para a população espalhada pelo arquipélago, às vezes em áreas isoladas.  Dos 148 jornalistas mortos em serviço desde 1986, 90 eram de rádio.  Isto revela uma violência sistemática contra profissionais deste meio de comunicação em todo o território. Entre as vítimas mais recentes: Erwin “Boy Pana” Segovia, apresentador da rádio WOW FM e diretor da estação Radyo Gugma, foi abatido, em 21 de julho de 2025, com um tiro na cabeça disparado por agressores não identificados. Embora o motivo do assassinato ainda não tenha sido confirmado, Erwin Segovia havia acabado de se apresentar e estava voltando para casa quando dois indivíduos em uma motocicleta o seguiram e atiraram nele na cidade de Bislig, na costa leste da ilha de Mindanao. Erwin Segovia era um jornalista conhecido por seus comentários incisivos sobre política e questões sociais em seu programa “Diritsahan!”.  

  • Rádios comunitárias são alvo de ataques na República Democrática do Congo

Localizadas no coração das zonas de conflito, frequentemente em áreas rurais ou isoladas do Kivu do Norte, Kivu do Sul e Ituri, no leste do país, onde o Estado tem presença limitada e onde operam numerosos grupos armados, as estações de rádio comunitárias tornam-se alvos diretos, presas num impasse entre as Forças Armadas da República Democrática do Congo (FARDC) e a coligação de rebeldes armados Aliança do Rio Congo (AFC)/Movimento 23 de Março (M23). Entre janeiro de 2024 e janeiro de 2025, mais de 25 estações de rádio comunitárias foram saqueada ou forçadas a fechar e mais de 50 ataques a redações e jornalistas foram identificados. Dois jornalistas foram mortos em 2024, em circunstâncias que permanecem obscuras.  O corpo do radialista da rádio comunitária MpetyYoshua Kambere Machozi, foi encontrado morto em novembro, após ser sequestrado por rebeldes do M23, e o coordenador da rádio católica MariaEdmond Bahati Monja, foi morto a tiros em Goma quando voltava para casa em 27 de setembro.

  • No Sahel também, as rádios comunitárias estão na linha de frente

No Sahel, do Mali ao Chade, a situação de segurança também está afetando gravemente jornalistas e apresentadores de rádios comunitárias, que enfrentam, sobretudo, sequestros por grupos armados, ataques e até mesmo a destruição de suas instalações. No Mali, em 7 de novembro de 2023, Abdoul Aziz Djibrilla, 28 anos, jornalista na rádio comunitária Naata, na aldeia de Labbezanga, perto da fronteira entre o Mali e o Níger, foi morto durante o ataque ao veículo que o levava para Gao para participar de um workshop de treinamento em jornalismo. Outros dois jornalistas, Saleck Ag Jiddou, também conhecido como Zeidane, diretor da Radio Coton Ansango, e o radialista Moustapha Koné foram sequestrados durante esse ataque e ainda estão desaparecidos. O documentário da RSF Radios communautaires : leur combat pour informer au Sahel. destaca o papel crucial desses meios de comunicação e as crescentes ameaças que enfrentam.

  • Afeganistão: estações de rádio censuradas, vozes femininas proibidas

Na província afegã de Khost, estações de rádio locais foram alvo de uma repressão baseada em critérios de “moralidade” impostos pelos talibãs. Três emissoras foram brevemente proibidas de transmitir em 2024, sendo sua reabertura condicionada a regras que restringem a liberdade de transmissão: proibição de transmitir música e proibição de receber ligações de ouvintes do sexo feminino. Na província de Helmand, no sul do país, as vozes femininas são completamente proibidas no rádio, sejam elas de apresentadoras ou ouvintes. A icônica rádio das mulheres afegãs, Radio Begum, teve sua transmissão suspensa em 4 de fevereiro de 2025 pelo Ministério da Informação e Cultura talibã, sendo autorizada a retomar as transmissões 18 dias depois. A rádio havia sido acusada de “múltiplas infrações”, incluindo o fornecimento de conteúdo para um canal de televisão estrangeiro. Após cumprirem uma pena de prisão de seis meses, dois de seus jornalistas foram libertados em julho de 2025.

  • Rádios públicas nacionais e internacionais na mira do governo Trump nos Estados Unidos

Desde o início de seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, Donald Trump vem liderando uma guerra implacável contra o jornalismo, da qual as emissoras de rádio públicas não escaparam. Em maio de 2025, ele assinou um decreto ordenando o fim do financiamento pela Corporation for Public Broadcasting (“Empresa de Radiodifusão Pública” ou CPB) dos dois principais meios de comunicação de radiodifusão pública americanos – a rede de televisão Public Broadcasting Service (PBS) e a emissora National Public Radio (NPR). Em janeiro de 2026, a CPB – que compreendia uma rede de 1.216 estações de rádio públicas locais, fontes de informação muitas vezes vitais em áreas rurais – anunciou seu fechamento após esses cortes orçamentários. Embora, por enquanto, a maioria das estações locais de NPRPBS permaneçam operacionais graças a doações e subsídios, o perigo de um desaparecimento em massa de emissoras de rádio é iminente. Quanto às rádios públicas internacionais, o governo Trump tentou repetidamente questionar a existência da Agência dos Estados Unidos para a Mídia Global (United States Agency for Global Media, USAGM), que administra o financiamento público para a radiodifusão internacional americana, incluindo Voice of America (VOA), Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL) ou ainda a Radio Free Asia (RFA). Essas emissoras constituem um raro vetor de informação confiável em áreas onde o jornalismo é criminalizado, como na Bielorrússia, Coreia do Norte, Rússia ou China. O desaparecimento de muitas delas deixa gravemente fragilizado o acesso a informações confiáveis e diversificadas, especialmente em áreas onde essa informação pode salvar vidas.    

  • Obstáculos econômicos e logísticos para as rádios na Amazônia brasileira

Produzir informações sobre a Amazônia brasileira e estando lá – um território que abrange nove estados e sofre com acesso e conectividade limitados – é um desafio diário: a falta de apoio público, a infraestrutura precária e as longas distâncias encarecem o trabalho de campo. Apesar de tudo, 49 estações de rádio operam em 38 municípios, de acordo com a InfoAmazônia, organização local de mídia digital. Rádios que abordam temas como desmatamento, mudanças climáticas, conflitos fundiários e os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Mas abordar esses temas às vezes expõe a pressões políticas e econômicas – particularmente de grupos ligados ao agronegócio e a interesses locais – que ameaçam a independência editorial e a segurança dos profissionais da mídia investigando temas sensíveis, particularmente os relacionados ao meio ambiente.

  • Europa: ameaças às rádios públicas

Embora a legislação europeia sobre a liberdade de imprensa (EMFA) exija que os Estados-Membros da União Europeia garantam a independência, o pluralismo e a viabilidade econômica dos meios de comunicação públicos, rádios de serviço público europeias estão enfrentando ameaças persistentes. Seu financiamento é frequentemente questionado, seu papel é enfraquecido pela concorrência das plataformas digitais e sua independência editorial é, por vezes, prejudicada por interferências políticas. Na Lituânia, a maioria governante continua a sua campanha por uma lei especial que exporia a radiodifusora pública LRT a pressões políticas após congelar seu financiamento. Os meios de comunicação públicos checos, incluindo a primeira rádio a transmitir no continente europeu em 1923, são confrontados à eliminação da taxa de royalties, que garantia sua independência, enquanto este método de financiamento corre o risco de ser drasticamente reduzido na Suíça por uma iniciativa popular no próximo dia 8 de março. No Principado de Liechtenstein, o encerramento do único meio de comunicação público, em abril de 2025, ilustra um caso extremo de fragilidade.

  • Ucrânia: continuar a informar os territórios ocupados por rádio apesar dos ataques

Torres de rádio e televisão bombardeadas, estúdios requisitados e ocupados: o Kremlin está atacando metodicamente a infraestrutura de mídia ucraniana. Desde 2022, nada menos que 25 ataques russos contra torres de televisão e rádio foram identificados pela RSF. Apesar disso, as estações de rádio locais ucranianas continuam seu trabalho a até algumas dezenas de quilômetros da linha de frente. Na região do Donbass, ao leste, nas cidades de Kharkiv, no nordeste, ou Zaporizhzhia, no sul, às vezes conseguem transmitir até mesmo para territórios ocupados pela Rússia, em um contexto em que as forças russas interferem em seus sinais, os bloqueiam e apreendem seus equipamentos. 

[Leia “Inside a Ukrainian newsroom: from front lines to occupied territories, independent radio stations broadcast at all costs]

  • No Sudão, as ondas de rádio estão sob ataque de armas

No Sudão, devastado por quase três anos de guerra, a rádio está na vanguarda dos meios de comunicação que as partes em conflito estão determinadas a sufocar. Segundo diversas fontes concordantes, das 22 estações de rádio locais ativas antes do conflito, apenas duas ainda transmitem, mas foram colocadas sob o controle das partes beligerantes. Estações de rádio sudanesas continuam seu trabalho ou são baseadas no exílio, como a Radio Dabanga, e enfrentam a censura e as tentativas de bloqueio de satélites, enquanto correspondentes em campo arriscam prisões arbitrárias e violência física para fornecer informações vitais das quais milhões de sudaneses presos dependem. 

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

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