Equatorianos negaram carta branca a Noboa ao rejeitarem reforma da Constituição em referendo, dizem analistas
No poder desde novembro de 2023, o presidente equatoriano, Daniel Noboa, sofreu sua primeira derrota nas urnas no domingo, quando a maioria dos cidadãos votou contra sua proposta de referendo para redigir uma nova Constituição e instalar bases militares estrangeiras no país. Reeleito em abril deste ano com 55% dos votos, Noboa apostou em uma política linha-dura no combate ao crime organizado e ao narcotráfico para impulsionar sua agenda, mas a maior parte dos 14 milhões de equatorianos convocados a votar obrigatoriamente disse “não” às propostas da consulta.
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Além da oposição ao retorno das bases militares estrangeiras, que estão proibidas desde 2008 (com 61% dos votos), e à redação de uma nova Carta Magna por uma Constituinte (62%), os equatorianos também rejeitaram o fim do financiamento estatal aos partidos políticos (58%) e a redução do número de congressistas (53%).
Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, o presidente é visto por muitos como um “mal necessário” no enfrentamento do crime organizado — mas não como um líder capaz de conduzir um projeto nacional. Além disso, afirmam, seu fracasso na tentativa de diminuir os índices de violência fez com que os eleitores se negassem a lhe dar um “cheque em branco”.
— O medo de um poder sem freios foi maior do que a confiança no presidente. O “não” na consulta foi a materialização desse temor, um freio preventivo contra a concentração de poder — afirma Leonardo Magalhães, especialista em Equador e CEO do Ipse, um dos poucos institutos de pesquisa que previram a derrota de Noboa no referendo.
O Equador, que já foi o país mais seguro da América Latina, vive sua pior crise de segurança em décadas e tem se consolidado como um dos principais centros do narcotráfico para a Europa e para os EUA. Em resposta ao aumento do crime organizado, Noboa mobilizou soldados nas ruas e nas prisões, ordenou grandes operações nos redutos do tráfico de drogas e declarou sucessivos estados de exceção, medidas frequentemente criticadas por organizações de defesa dos direitos humanos.
Não foi suficiente: um relatório do International Crisis Group (ICG) divulgado na semana passada revela que a primeira metade de 2025 foi o semestre mais violento da História do Equador, que se encaminha para um colapso institucional e corrupção generalizada em portos, forças de segurança e no sistema prisional. Dias antes do referendo, uma rebelião em uma prisão em El Oro, no sudoeste do país, resultou na morte de 31 detentos, incluindo 27 enforcados.
— O governo não conseguiu retomar o controle do sistema penitenciário, que há quase dois anos registra constantes motins internos com dezenas de mortos. Não há um enfoque no controle do crime, mas uma série de intervenções militares pontuais, sem uma presença permanente que permita recuperar esses territórios — explica Glaeldys González, especialista em Equador do ICG. — O resultado da consulta reflete um momento do país em que há uma preocupação com a escalada da violência, e talvez seja uma forma de demonstrar de forma mais profunda a rejeição generalizada dos equatorianos ao incremento das medidas de militarização da segurança pública.
Ameaça a capital político
Com a derrota, a governabilidade a médio prazo dependerá da habilidade de Noboa para entregar resultados expressivos na segurança, “sem cruzar a linha vermelha da institucionalidade democrática que o povo equatoriano, de forma clara e contundente, demarcou nas urnas”, afirma Magalhães, do Ipse.
— O eleitorado equatoriano concedeu a Noboa um mandato tático para combater o crime, mas negou-lhe um mandato estratégico para redesenhar o Estado. Compreender essa dualidade é fundamental para projetar os desafios de governabilidade que ele enfrentará a médio prazo — explica. — Se ele falhar, ou seja, se a percepção de segurança não melhorar de forma sustentada, e dados da imprensa sobre o aumento de extorsões e sequestros já indicam que a violência apenas se transformou, sua principal fonte de capital político evaporará rapidamente. E mesmo que tenha sucesso, qualquer ação percebida como abuso de poder ou desrespeito às normas constitucionais ativará a desconfiança dos 61,5% que já o veem como autoritário.
Após o resultado, o presidente cancelou um encontro com a imprensa e publicou uma curta mensagem no X: “Estes são os resultados. Consultamos o povo equatoriano e ele se manifestou. Cumprimos nossa promessa: perguntar diretamente a ele. Respeitamos a vontade do povo equatoriano”. A oposição também reagiu. Geovanny Atarihuana, presidente nacional da Unidade Popular (UP), afirmou que, a partir deste momento, Noboa deve entender a mensagem do povo que disse “não” ao seu governo “e às suas perguntas”.
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Em sua luta contra as gangues, Noboa vinha sendo comparado ao presidente salvadorenho, Nayib Bukele, e chegou a construir uma prisão similar ao Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), a maior prisão das Américas.
— [A votação] é um freio, mas também uma rejeição a essa forma de governança autoritária e à lógica de guerra interna, da via militar a la Bukele, que não está dando resultados. — explica o cientista político Franklin Ramírez. — O governo não tem uma estratégia clara na luta contra o crime, tem uma narrativa mas não uma estratégia. E a sociedade está lendo isso.
Mas, diferentemente de seu homólogo, que viu sua popularidade disparar após diminuir drasticamente os índices de violência — com métodos também questionados como abusivos por diversas organizações de direitos humanos — uma pesquisa recente do Ipse apontou que 49% dos equatorianos qualificam o a gestão de Noboa como “muito ruim”.
— O Equador não é El Salvador. No Equador, as facções têm um poder econômico, financeiro e militar muito superior às gangues salvadorenhas, e operam em um país muito maior. A capacidade do Estado equatoriano para enfrentar esses grupos e patrulhar o país é muito menor. Por último, a política de detenção, assassinato ou extradição dos líderes das facções ajudou a fragmentá-las e gerou uma guerra interna de liderança — explica Tiziano Breda, analista sênior para a América Latina e o Caribe na ACLED, que cita ainda outros fatores que influenciaram o resultado, entre eles a falta de clareza sobre as razões que levaram à convocação de um referendo.



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