×

STF esconde informações sobre tramitação de ação que tirou caso da 1ª instância

STF esconde informações sobre tramitação de ação que tirou caso da 1ª instância

Em meio à crise instalada com a condução de Dias Toffoli no caso Banco Master, o Supremo Tribunal Federal (STF) negou um pedido da equipe da coluna via Lei de Acesso à Informação para ter acesso a dados processuais da ação movida pelo dono do Master, o executivo Daniel Vorcaro, com o objetivo de tirar as investigações da Justiça Federal e remetê-las ao STF.

  • Master: Ministro do TCU que declarou guerra ao BC vai analisar pedido para investigar diretor
  • E ainda: Como Toffoli tenta controlar as investigações sigilosas do Master

As informações requisitadas não dizem respeito ao conteúdo do processo, e sim à tramitação. O objetivo era saber como foi a distribuição do caso para Dias Toffoli (se por sorteio eletrônico ou “prevenção”) e a que horas o relator foi designado. Hoje nem esses dados são divulgados.

O processo foi protocolado no STF no dia 27 de novembro do ano passado. No dia 28, Toffoli impôs sigilo sobre o caso, que havia sido protocolado inicialmente como “segredo de Justiça”. No mesmo dia, o ministro pegou carona em um jatinho privado do empresário Luiz Oswaldo Pastore rumo a Lima, para acompanhar a final da Libertadores entre o Flamengo e o Palmeiras, time pelo qual torce, conforme revelou o colunista do GLOBO Lauro Jardim.

  • Análise: Nota pró-Toffoli apequena Fachin e mostra que ele está perdendo guerra pela moralização do STF
  • Master: ‘Prioridade é atender o proprietário’, diz avaliação de resort dos Toffoli

Se tivessem sido disponibilizadas, essas informações permitiriam esclarecer se Toffoli se tornou relator da ação de Vorcaro antes, durante ou depois do voo para Lima. O sigilo sobre o caso foi imposto pelo ministro horas depois após o blog revelar que Vorcaro entrara com uma ação para que as investigações deixassem a Justiça Federal e fossem enviadas para o STF.

O jatinho saiu de São Paulo às 10h26, pousou no Rio de Janeiro às 11h07 e seguiu para Brasília, onde aterrissou às 13h17. Às 14h43, o jatinho deixou a capital federal rumo a Lima, levando Toffoli, Pastore, o ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo e o advogado Augusto de Arruda Botelho.

  • Tentativa: Por que Bolsonaro vai insistir em prisão domiciliar, apesar de melhores condições da Papudinha
  • Privilégios: As vantagens para Bolsonaro na Papudinha, segundo Alexandre de Moraes

Entre os passageiros do jato estava o advogado Augusto de Arruda Botelho, responsável pela defesa do ex-diretor de compliance do Master, Luiz Antonio Bull. Na época da carona, Toffoli disse a interlocutores que a ação de Vorcaro não tinha ainda chegado a ele e afirmou que não conversa sobre processos nessas ocasiões.

Conforme revelou O GLOBO, a mesma aeronave também esteve no ano passado na região do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), do qual parentes do magistrado foram sócios.

  • Exclusivo: Diretor do BC pediu a presidente do BRB que comprasse carteiras fraudadas do Master
  • Master: Em acareação, Vorcaro e ex-presidente do BRB complementam versões sem divergências

A equipe da coluna pediu ao STF acesso à certidão de distribuição do processo. Esse documento é elaborado pela Coordenadoria de Processo Inicial do STF, responsável pelas primeiras etapas da tramitação dos casos e petições que chegam à Corte – e informa como foi a distribuição (se por sorteio eletrônico, ou “prevenção”) e a que horas um relator foi designado.

Em 3 de dezembro, ou seja, cinco dias após a decretação de sigilo, Toffoli decidiu concentrar em si mesmo o poder de autorizar qualquer nova medida de investigação no caso – e manteve o sigilo, sob a alegação de “evitar vazamentos que obstaculizem as investigações”.

A resposta da Ouvidoria do STF

De acordo com a Ouvidoria do STF, “informações relacionadas a processos sigilosos somente podem ser prestadas pessoalmente, aos advogados devidamente constituídos nos autos, mediante deferimento do ministro relator”.

  • Pressão: Senador inclui conexões de Toffoli com resort em pedido para afastá-lo do caso Master
  • E ainda: Deputado aciona PGR e pede bloqueio de bens de Ibaneis para ressarcir DF

A Ouvidoria “sugeriu” ainda a leitura de uma resolução de 2025 do STF,

que trata sobre a tramitação de processos sigilosos. Segundo a resolução, “os atos processuais no STF são públicos, ressalvadas as hipóteses constitucionais e legais em que o interesse público ou social, a proteção da intimidade e da privacidade e a efetividade das investigações criminais justifiquem a imposição de sigilo”.

Para a diretora executiva da ONG Transparência Brasil, Juliana Sakai, “tais elementos não parecem estar presentes neste caso”. Ela considera que a imposição de sigilo é “questionável” e “impõe uma barreira para o direito constitucional de acesso à informação”.

“Em nenhuma hipótese é plausível que retirar acesso a metadados, como data e horário da distribuição do processo estejam alinhados com o interesse público. A gravidade de um sigilo máximo deveria, no mínimo, ter anuência do colegiado de ministros. É importante que o STF adote um sistema de governança melhor para retirar transparência de processos.”

Em nota enviada ao blog nesta terça-feira (27), o gabinete de Toffoli informou que o ministro “se declara impedido em processos que envolvem o empresário Luiz Pastore” e que, na época da viagem, “não havia sido notificado sobre a distribuição de tais processos, tampouco detinha informações sobre os demais passageiros do voo”.

A atuação do ministro no caso tem sido marcada por decisões esdrúxulas – como a decretação do sigilo e a determinação de uma acareação antes mesmo que fossem colhidos depoimentos – e provocou mal-estar no STF. Em entrevista ao blog da jornalista Ana Flor, o presidente do STF, Edson Fachin, disse que a tendência é o caso Master ser devolvido à primeira instância.

Mas, conforme informou o blog, Toffoli pretende aguardar a conclusão dos depoimentos, a elaboração de um relatório da PF e o envio de um parecer da PGR antes de decidir sobre a questão da competência.

Caio Rocha

Sou Caio Rocha, redator especializado em Tecnologia da Informação, com formação em Ciência da Computação. Escrevo sobre inovação, segurança digital, software e tendências do setor. Minha missão é traduzir o universo tech em uma linguagem acessível, ajudando pessoas e empresas a entenderem e aproveitarem o poder da tecnologia no dia a dia.

Publicar comentário