Toffoli retira sigilo de depoimentos no caso Master – 29/01/2026 – Economia
O ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), levantou o sigilo dos depoimentos prestados à PF (Polícia Federal) pelos banqueiros Daniel Vorcaro, do Master, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB (Banco de Brasília), e do diretor de Fiscalização do BC (Banco Central), Ailton de Aquino, no fim de dezembro. A decisão foi tomada atendendo a pedido do Banco Central.
Os depoimentos foram colhidos pela delegada da PF Janaína Palazzo antes da acareação entre os empresários, determinada pelo próprio Toffoli no âmbito da investigação sobre as fraudes financeiras.
Nas oitivas, Vorcaro e Costa entraram em divergência sobre a origem de créditos falsos repassados ao BRB pelo Master, que causaram prejuízo bilionário à instituição do DF. O controlador do Master disse que integrantes do BC chegaram a recomendar a venda do banco ao BRB.
Na decisão, Toffoli ponderou que a retirada de sigilo está relacionada apenas aos depoimentos e que o inquérito sobre o caso Master continua em segredo, até que a Procuradoria-Geral da República se manifeste.
Durante a acareação, Costa e Vorcaro não concordaram sobre a origem dos créditos falsos, calculados em R$ 12,2 bilhões, que o Master repassou ao BRB. As investigações do Ministério Público Federal, com base em denúncia feita pelo Banco Central, apontaram que o Master adquiriu carteiras de crédito da consultoria Tirreno, sem realizar qualquer pagamento, e logo em seguida, os papéis foram vendidos ao BRB.
O dono do Master afirmou que o banco do DF tinha conhecimento de que as carteiras eram originadas por terceiros, e não no Master.
“A gente chegou a conversar por algumas vezes que a gente começaria um novo formato de comercialização [de carteiras de crédito], que seria de terceiros, carteiras originadas por terceiros e não mais originação própria”, afirmou Vorcaro.
Costa, no entanto, disse que pelo seu conhecimento os créditos haviam sido originados no Master.
“Meu entendimento é que eram carteiras originadas pelo Master que haviam sido vendidas ou negociadas a terceiros e que o Master estava recomprando e revendendo para a gente”, disse o ex-presidente do BRB.
De acordo com o ex-presidente do BRB, a ligação direta com a Tirreno só foi identificada entre abril e maio, após análises técnicas apontarem que havia um padrão documental distinto nos contratos.
“Ao analisar alguns contratos, identificamos que tinha um padrão documental diferente. E a partir daí é que a gente começou a questionar quem eram os originadores específicos”, afirmou o ex-presidente do BRB.
Costa explicou que a detecção tardia ocorreu porque a identificação do originador final do crédito não costuma integrar os documentos utilizados nas análises de risco. Isso, segundo ele, dificultou a identificação imediata da origem dos ativos.
Em sua defesa, Vorcaro sustentou que o Master permaneceu operacional e que teria honrado cerca de R$ 10 bilhões em resgates de investidores entre março e novembro do ano passado, apesar de reconhecer que enfrentou um período de forte pressão sobre a liquidez.
Para solucionar o impasse em torno das carteiras problemáticas, Master e BRB realizaram uma ampla troca de ativos. Do total de R$ 12,7 bilhões, aproximadamente R$ 10,2 bilhões foram substituídos por novos créditos consignados, imobiliários e corporativos. O BRB aplicou um deságio médio de 30% nesses ativos, o que resultou em uma margem de segurança estimada em cerca de R$ 2 bilhões a favor do banco público, disse Costa.
Ao final da acareação, Vorcaro afirmou que a operação foi encerrada sem prejuízo ao BRB. Costa, porém, ponderou que, embora as garantias tenham sido reforçadas, ainda havia pendências formais e ativos— como cerca de R$ 800 milhões em ações— que dependiam de avaliação final de preço no momento em que o processo foi interrompido pela liquidação do banco.
Os créditos falsos causaram prejuízo ao BRB. Como mostrou a Folha, o diretor do BC disse em depoimento que a reserva de recursos a ser feita pelo BRB para cobrir as perdas com o Master pode se aproximar de R$ 5 bilhões. O BC já determinou que o banco do DF faça um provisionamento (reserva financeira) de R$ 2,6 bilhões em seu balanço para cobrir perdas. Seriam necessários ainda outros R$ 2,2 bilhões, segundo Aquino disse na oitiva.
Aquino diz que o Banco Central concluiu que os créditos comprados pelo BRB eram falsos quando o regulador fez uma reunião com representantes das empresas Cartos e Tirreno. “A gente começa a discutir, dado que a Cartos é uma empresa pequena, e a Tirreno é uma empresa desconhecida… Eu pergunto várias vezes: quanto você gerou de crédito?”, diz o diretor do BC.
O responsável pela empresa, segundo Aquino, disse que gerava entre R$ 30 milhões e R$ 50 milhões e depois de uma hora de conversa, os valores foram subindo. Em certo momento da conversa, a cifra teria subido para R$ 6,2 bilhões. “Isso é impossível, do ponto de vista técnico, de uma empresa gerar isso.”
Aquino diz que o único relacionamento da Tirreno é com o Master, iniciado em 23 de maio de 2025. Além disso, afirmou que o regulador não viu nenhum fluxo financeiro na Tirreno, via TED, Pix ou câmbio.
Em seu depoimento, Vorcaro afirmou, por exemplo, que conversou com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sobre a venda do Master ao BRB. Segundo ele, foram “conversas institucionais”.
O ex-banqueiro afirmou ainda que a compra do Master pelo BRB foi recomendada pela própria fiscalização do BC. “Naquele momento, até antes da gente dar entrada, [a fiscalização do BC] indicava como sendo um bom negócio para o sistema financeiro. Foi uma pena o negócio ter sido negado, uma pena para o mercado brasileiro”, disse Vorcaro.
Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, disse que uma eventual compra do Master passaria por uma auditoria do banco, uma seleção dos ativos e passivos, além da exigência de troca de marca, para não gerar risco reputacional. Também seria negociada a saída de Vorcaro como controlador e até sócio.



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